Fazendo um parêntese


Porquería

Por que escrever quando estou triste
Se posso simplesmente chorar

Por que escrever quando tenho uma grande ideia
Se posso colocá-la em prática, abrindo um largo sorriso

Por que os porquês têm acento às vezes sim às vezes não
Se eles são sempre por que

Por que a gramática atravessa as palavras
Se as palavras já falam por si mesmas

Por que um poema só porque quero perguntar por quê



Muita gente tem dificuldade com os porquês. É uma confusão só: quando uso por que separado e sem acento? E quando ele deve ser junto e sem acento? Ah, tem também separado com acento, quando uso? E aquele que é junto e com acento? Na verdade é bem simples, quer ver? Por que, separado e sem acento para fazer perguntas – seja no início ou no meio da frase; junto e sem acento, para dar respostas, explicações e justificativas também no início ou no meio da frase. Já o separado com acento faz apenas perguntas no final da frase. Por fim, o junto com acento vem precedido de um artigo – o chamado por que substantivado. Facinho, né? Mas insistimos em complicar, isto porque, na hora de empregar os porquês queremos lembrar as regras em vez de pensar nos sentidos que eles estabelecem. As regras são importantes e nos dão um direcionamento necessário, mas é o sentido que desejamos estabelecer que vai determinar o que dizemos e como dizemos. Por isso, pense que se o que você vai dizer tem valor, sentido de resposta, então o porque deve estar juntinho, bem amarradinho e concatenado como uma resposta deve ser. Por outro lado, se quiser estabelecer a dúvida, o questionamento, a pergunta, coloque o por que separado, pois a pergunta não tem nada no lugar, ela quer se encontrar. Daí, se você quer dar esse mesmo sentido de pergunta, mas for colocar o por quê lá no final de toda a confusão, coloque ainda mais um acessório – o chapeuzinho (acento circunflexo) – para enfatizar ainda mais a sua expressão de dúvida! E se o sentido que você quiser empregar for de uma palavra, tal que você não sabe qual exatamente, mas que de alguma forma designa o que você deseja dizer, deixe o porquê juntinho, todo arrumadinho, com um chapeuzinho também para dar um charme!
Se depois de todo esse papo furado, você ainda quiser saber o porquê dos porquês, use separado sem acento! Tipo assim: Por que Deus me salvou? Por que Ele me escolheu para ser seu servo? Por que devo pregar o Evangelho? Por que ir à igreja? Por que coisas ruins acontecem aos filhos de Deus? Por que o mundo rejeita a Cristo? Por que...?
Ao fazer todas essas perguntas, podemos perceber que um “por que” pode ter vários significados. De gramatical a semântico, como vimos na primeira parte deste texto. E daí à muitas outras possibilidades de significação a depender também de nossa visão de mundo e da capacidade de leituras variadas. Se nos concentrarmos apenas no campo cristão, vemos em Gálatas que quando Paulo questiona a rapidez com que a igreja esqueceu os preceitos de Cristo, não somente prestamos atenção se ele colocou o “por que” separado e sem acento – como deve ser para se fazer perguntas – mas, observamos que ele está preocupado com coisas que vão além das aparências; mais do que isto, com coisas que vão além das regras (restritas aos dez mandamentos “seguidas fielmente pelos judeus”). Observamos ainda que não é somente Paulo quem realiza questionamentos nesta carta mas a igreja dos gálatas também questiona os preceitos de Cristo– circuncisão/ incircuncisão, liberdade/servo -, por conseguinte, nós leitores ainda questionamos os preceitos de Cristo, pois há muita coisa envolvida acerca das coisas de Deus que devem ser o centro de nossas vidas e de nossas preocupações. Entretanto, o questionamento não deve se dar com o coração turbado, mas com o coração sereno, confiante na ação do Espírito Santo!.
Para isso, Cristo nos responde com alguns porquês: “Porque eu, pela lei, estou morto para a lei, para viver para Deus.” Gl 2:19; “Não aniquilo a graça de Deus, porque, se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu debalde.” Gl 2:21; “E, porque sois filhos, Deus enviou aos vosso corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai.” Gl 4:6...Esses “porquês”, juntinhos e sem acento, longe de serem respostas e explicações totalmente claras e objetivas, nos levam a pensar ainda mais e a fazer outras perguntas que ao passo que se faz necessário e relevante, Deus vai respondendo, segundo a medida que Ele define melhor para nós. Portanto, não façamos tanta confusão com os porquês, porque tudo pertence a Deus, e é Ele quem nos guia, não as aparências, ou as regras ou nossa ansiedade, mas é o sentido que Ele quer dar às nossas vidas e através das nossas vidas ao mundo que verdadeiramente importa. Que nossos porquês busquem a vontade do Senhor com calma e fé!
Enquanto isso, Paulo faz um parêntese “(Porque aquele que operou eficazmente em Pedro para o apostolado da circuncisão, esse operou também em mim com eficácia para com os gentios)” Gl 2:8. Por quê?

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