Ajudar não dói?!?!

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/pt/thumb/f/fc/Eek!_The_Cat_%28Personagens%29.jpg/240px-Eek!_The_Cat_%28Personagens%29.jpg

Quem, entre aqueles nascidos na década de 80, não se lembra do desenho "Eek, the cat", que passava nas manhãs dos anos noventa? Sim, Eek fez a alegria de muita gente, inclusive a minha. Na época, era meu desenho favorito. Gostava do Eek, um gato gente boa que tinha um bordão interessante: "Ajudar não dói!". Achava super engraçado!

Eek é um gato tranquilão que tem uma namorada chamada Ana Bella, uma gata rosa e gorda que tem um cão-tubarão chamado Sharky. Toda vez que Eek vai à casa da namorada ele é perseguido por Sharky e tem de fugir das poderosas mandíbulas do cachorro. A namorada de Eek sempre pede favores ao pobre bichano que sempre o envolvem em enrascadas e o metem em apuros. O melhor amigo de Eek é o alce Elmo, que não é bom do juízo e vive abusando da gentileza e amizade do gato. Assim, Eek vive em trapalhadas, sendo mordido, apanhando, sofrendo acidentes e se "dando mal". No entanto, Eek nunca deixa de ajudar os outros e de seguir dizendo: "Ajudar não dói!".

A atitude de Eek sempre me chamou a atenção: mesmo sempre levando a pior, Eek não deixa de seguir com seu princípio de ajudar as pessoas. Em um episódio clássico, por causa do seu excesso de gentileza, Eek quase finda seus dias no inferno, pois faz o favor de "segurar um pouco" o "currículo" de outro gato na fila para o paraíso e termina sendo enviado ao inferno (http://youtu.be/adBxekPeGKY).

Para mim, no começo, Eek representava o típico cristão: alguém sempre preocupado em fazer o bem, doa a quem doer (mas só doía nele, coitado!). Com o tempo, no entanto, fui percebendo que a atitude de Eek não é a atitude que deve haver em um cristão. Eek é prisioneiro de seus "princípios" e termina se metendo em encrencas por causa dos outros de forma desnecessária.

É claro que a ideia de ajudar os outros é cristã. "Amar o próximo como a si mesmo" é o resumo da lei. No entanto, observem que devemos amar o outro da mesma forma que nos amamos. Isso quer dizer que na mesma medida que nos amamos devemos amar os outros, ou seja, não implica em nos anularmos por causa dos outros, mas de amarmos do mesmo jeito. Eek tentar agradar e ser "bom" a qualquer custo, como que preso a uma ideia de que tem de agradar a todos o tempo todo. Isso não termina sendo bom nem pra ele, que passa por enrascadas o tempo inteiro, nem para seus amigos, que não amadurecem e não conseguem lidar com os próprios problemas.

Em Eclesiastes, lemos um trecho que, na primeira vez que li, me causou estranhamento:

Não sejas demasiadamente justo, nem demasiadamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo?
Não sejas demasiadamente ímpio, nem sejas tolo; por que morrerias antes do teu tempo?
Bom é que retenhas isso, e que também daquilo não retires a tua mão; porque quem teme a Deus escapa de tudo isso.
(Eclesiastes 7:16-18)

A princípio, podemos pensar que existe algum erro na colocação do sábio. Afinal, ser justo não é bom? Como ser justo "excessivamente" pode levar à destruição? Bem, o melhor exemplo é o Eek. Por causa do seu "excesso" de bondade, ele se destrói o tempo todo e termina por contradizer seu slogan: sempre que ajuda, Eek sofre muita dor. A ideia no trecho é a de equilíbrio. Sabemos que não temos como ser justos diante de Deus, nem como seguir a "lei" ao pé da letra. Se buscarmos isso, por nossas forças e a qualquer custo, terminaremos sendo intransigentes, pessoas amargas, que alimentam o ódio dos outros por não tolerarem as falhas alheias em nome da "justiça". Ou, por outro lado, podemos nos tornar pessoas tão estúpidas, como Eek, que toleram tudo de todos, exceto de si mesmo e, com isso, se destroem por não se tolerarem. Qualquer dos extremos levará a autodestruição, mesmo o ser "mau" em excesso.

Por isso, devemos ser equilibrados, sabendo que somos falhos, imperfeitos, falíveis, capazes de fazer o mau, mas sabendo que existe um meio de sermos perdoados, regenerados, aperfeiçoados e aprimorados: dependendo unicamente da Graça de Deus. Por ela, somos justificados e podemos fazer o bem; por ela, o mal em nós é subjulgado e reduzido, nos permitindo "viver" em Cristo. Assim, nem nos destruímos nem morremos antes do tempo, mas alcançamos o equilíbrio em Deus. Equilíbrio que nos permite, inclusive, ajudar aos outros, com dor ou sem dor, mas fazendo o que nos é possível, dentro de nossas limitações, mas com muita Graça e com muito Amor.