Qual a minha motivação?

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Pegando o gancho do último texto da Priscila e combinando com um mangá que tenho lido atualmente (combo?), trago uma reflexão sobre motivação.

Estou acompanhando um mangá chamado "Shijou Saikyou no Deshi Kenichi" (imagem acima), do mangaka Matsuena Syun, cujo título em português seria algo como "Kenichi, o discípulo mais forte". A traminha gira em torno de Kenichi Shirahama, aluno comum do 1º ano do ensino médio, que, depois de alguns incidentes se vê treinando artes marciais em um dojo. Mas não é um dojo qualquer, trata-se, simplesmente, do dojo que possui os maiores mestres do mundo em algumas artes marciais como karate, muay thai, kung fu e jiu-jitsu.

Não, Kenichi não é nenhum fortão. Ele também não é um lutador nato. Tão pouco ele sabe lançar um hadouken (hehehehe). Pelo contrário, desde o início de seu treinamento em artes marciais seus mestres fazem questão de lhe repetir uma frase: "Você não tem talento algum para artes marciais!". Antes de entrar para o dojo, Kenichi era um estudante razoável, com pouca aptidão física, que apanhava dos valentões da escola e lia livros de auto-ajuda sobre como fazer amigos ou como fugir de situações perigosas. Kenichi sequer é mais forte do quê a garota de quem ele gosta: Miu Fuurijin, a neta do dono do dojo que também é ótima lutadora.

Ué, mas então como é que esse carinha fracote é chamado no título do mangá de "o discípulo mais forte"? Também me fiz essa pergunta. Afinal, além de tudo isso, Kenichi é tímido e um tanto covarde para enfrentar os problemas. Sempre que o treinamento fica mais árduo, ele dá um jeitinho de fugir para casa ou de ficar descansando em algum lugar. Ele evita o máximo que pode uma luta, exceto... quando é para proteger alguém que ele gosta, alguém importante para ele.

Essa é a motivação de Kenichi para treinar artes marciais mesmo sem talento, porte físico ou coragem. Dia após dia, ele mantém seu treinamento porque sonha em proteger Miu, sua amiga e paquerinha, sua família e seus amigos de valentões, bandidos ou de injustiças. Por isso, Kenichi é o discípulo mais forte: seu treinamento em artes marciais não visa a tornar-se mais forte para si mesmo, mas para proteger as pessoas importantes para ele. Ele deseja ser forte o suficiente para proteger os seus sem ter de machucar os outros. E esse objetivo exige uma motivação grande, que supere suas fraquezas e desânimos.

Depois de perceber isso, fiquei pensando em minha motivação (meu Deus, como ela é pequena!). Minha motivação para estudar, minha motivação para escrever, minha motivação para ser uma pessoa melhor, minha motivação para me aproximar mais de Deus, minha motivação para desenvolver um amor perfeito, enfim, minha motivação para viver e existir.

Para nós, cristãos nerds, seguir a Jesus e realizar seus ensinamentos exige uma grande motivação. Não pode ser uma motivação mesquinha do tipo "quero ir para o céu" ou "preciso que minha mãe seja curada". Em muitas ocasiões, Jesus dispensou as pessoas com esse tipo de motivação para seguí-lo: "Vocês também não vão embora?", "O filho do homem não tem onde reclinar a cabeça" ou "ninguém que olha para trás é digno do reino dos céus". Jesus não é um mestre que fica clamando por discípulos a qualquer custo. O "venham a mim todos" tem um complemento: "os que estão cansados e sobrecarregados", no mínimo, você deve se reconhecer cansado e sobrecarregado. Ainda assim o mestre que alivia também mostra a dureza do treino: "Pai ficará contra filho e filho contra pai", "não vim trazer paz, mas espada" e "você deve dá a outra face".

Será que minha motivação é forte o suficiente para aceitar e realizar esse treinamento? Será que me manterei focado em seguir esse Caminho, custe o que custar? Será que estou neste Caminho por uma motivação que agrade a Deus, algo que não seja mesquinho e egoísta? O mestre é o melhor que existe, e o discípulo? Será que tem uma motivação forte o suficiente para seguir o treinamento até o fim?

Meu desejo sincero é vasculhar meu coração, sondar minhas motivações e criar um espírito determinado a ser o melhor discípulo possível para o meu mestre. E você?

O calinho da meia lua



Sabe aquele calinho no dedo que se forma de tanto esfregar meia lua pra frente e soco? Pois é ainda pior o calinho que se forma no dedo de quem aperta em todas as setas e letras sem comandos certos, à espera de um golpe perfeito (quiçá um Hadouken!). Esses calinhos fazem latejar um misto de sensações entre a dor e o prazer. E a fronteira entre elas é facilmente apagada quando uma dor se torna prazer e um prazer se torna dor. É preciso distingui-las para que o calinho não se perca nos desvãos desses sentimentos
O calor da luta traz à tona a reflexão, sempre problemática, a respeito de fé e prática. Apertar todos os botões a esmo é demonstrar fé, confiando que, de uma forma ou de outra, a vitória pode ser alcançada. Mas, o adversário não vê essa fé, pois ela está escondida na ausência de uma prática de luta consciente que evidencie a esperança de que a aplicação de um comportamento adequado garante mais chance de conquista. Por isso, o adversário efetua seu ataque diante do que vê, minando forças e instaurando incertezas - o que nos leva à derrota.
Diante disso Tiago tão sabiamente exorta: “a fé sem obras é morta” (Tiago 2:17). O calinho da meia lua pode incomodar um pouco, doer, no entanto mirá-lo e senti-lo é saber que ele se formou com um propósito, e que tem a finalidade de deixar sempre viva na memória as dificuldades da luta e o sacrifício que dá a vitória. É o espinho na carne; é o espetáculo da vida cristã em ação de fé! É a consolação das nossas dores e o reflexo da nossa alegria (prazer).
Portanto, fé e prática devem ser conjugadas, uma não exclui nem se sobrepõe a outra, as duas são necessárias e se completam em nosso pensar, falar e agir. Entretanto, praticar a nossa fé é um verdadeiro “Street Fighter” dia a dia. Não é como se reunir com os amigos para algumas partidas de videogame num clima de descontração e esportividade, mas é como entrar em um campeonato mundial cheio de pressão e competitividade exacerbada. Isso pode nos meter medo, desânimo, passividade e vontade de desistir, mas o calinho que já está formado em nós está preparado para uma meia lua sempre para frente, prosseguindo para o alvo, socando as investidas do inimigo, rumo ao prêmio da “soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3:14).
Sendo assim, não despreze o conhecimento da Palavra de Deus. Ela é o manual para que você saiba exatamente quais os golpes mais eficientes e como usá-los a cada luta. Cada luta é uma nova luta, enquanto a Palavra de Deus não muda, “é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.” (Hebreus 4:12). Assim, felizes aqueles que têm o calinho da meia lua e que apelam mesmo sem cessar para a prática imbatível da fé sincera e firme – hadouken – hadouken – hadouken – hadouken – hadouken – hadouken – hadouken – hadouken – hadouken... K.O!

A vida póstuma do cristão



           Muita gente pensa que após a morte há um descanso eterno. Por isso, tentam levar uma vida em ritmo frenético, poucas horas de sono, muito trabalho e investimento em atividades que, segundo consta, só poderão ser efetuadas nesta vida. Brás Cubas, por outro lado, discorda redondamente desse pensamento, uma vez que resolve escrever suas memórias depois de morto, sendo, portanto, um “defunto autor” (cap. I, p. 17). Ele nos mostra que no além-túmulo é possível produzir, e produzir com sinceridade, pois sem as amarras sociais, fica livre para escrever e dizer a verdade.
Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. (cap. XIV, p. 55)
          Seja como for, a vida de Brás Cubas é póstuma. O leitor ingênuo se aterá aos acontecimentos narrados acerca de sua vida quando estava vivo. Por sinal, foi uma vida medíocre e que não rendeu nenhum fruto “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” (cap CLX, p. 176). Mas, o leitor arguto, observará que há mais relevância no Brás morto. Importa muito mais o Brás escritor, porque este Brás aponta para o texto como centro de tudo. Ele deixa de ser o centro, como é em vida, e morto, o texto é tudo.
          A genialidade de Machado de Assis ao criar esse defunto autor me faz pensar na vida cristã sob uma perspectiva diferente. Faz-me pensar que a vida do cristão também é póstuma. Pois, para sermos de Cristo precisamos morrer para este mundo e para o pecado. A partir dessa morte, passamos a viver uma nova vida. Uma vida além-túmulo-espiritual. Agora, podemos olhar não para nós mesmos, mas para Cristo. Ele passa a ser o centro, o Tudo. Daí, nossas vidas devem ser transformadas segundo os princípios deixados na Palavra de Deus para que o espectador arguto ao olhar para nós veja o que realmente importa: Cristo. Diante disso, percebemos que não temos, digamos, um descanso eterno, mas agora que estamos mortos é que vivemos e temos muito o que fazer: amar, servir, perdoar, andar como Jesus. Pois, certamente, “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.” (Gálatas 2:20)
          Do mesmo modo que em Brás Cubas encontramos duas linhas do tempo, a vida antes da morte, e a vida depois da morte, nós também caminhamos assim, como em mundos paralelos numa jornada de Tidus (Final Fantasy X) – enfrentando obstáculos e inimigos difíceis até chegar ao portal perto do castelo de Ultimecia -, ou, de Dante – que estando ainda vivo, viaja entre os mortos do Inferno e passa pelo Purgatório (trava embates com poetas mortos e sofre as dificuldades para ultrapassar esses lugares sombrios) até chegar ao último céu, onde lhe é dado contemplar a essência divina. Assim, nossas vidas, longe de encerrarem com a morte, na verdade, começam a ser verdadeiras e frutíferas vidas depois que morremos para tudo que não se chama Jesus Cristo!

Cristo bunshin no jutsu



Assim que se acorda, o homem pós-moderno clica o botão que liga a TV, e, entre o banho e um gole na xícara de café, com apenas mais alguns cliques, vê o que se passa nos principais canais, além de dar uma olhadinha na coluna de notícias do msn e nas últimas mensagens do facebook. Antes mesmo de sair de casa, ele já fez diversas atividades simultâneas, em tempo exageradamente rápido e pouco, muito pouco aproveitado com qualidade. O homem pós-moderno, diante de todas as (des)conveniências tecnológicas à palma da mão, não é mais um, mas vários. Ele consegue executar o “Kage Bunshin no Jutsu” (habilidade de clonar-se), em segundos. Basta clicar o botão da TV e do computador, apertar o interruptor para acender a lâmpada, tocar o botão da chave elétrica do carro, discar as teclas do celular e pressionar a função “ligar” do forno micro-ondas. Pronto! Parece que nada mais é real, nem o homem nem o mundo dos homens. São clones cada vez mais perfeitos de uma realidade verdadeiramente virtual. Talvez Platão nem imaginasse haver tantas cópias de cópias, como Naruto nem imaginava conseguir fazer tantos clones seus com a força do pensamento.
Você deve estar se perguntando agora como é que Platão e Naruto foram parar juntos na mesma comparação alusiva. Pois é isso mesmo que a pós-modernidade faz, mistura os espaços e as ideias como se tudo fizesse parte do mesmo cenário, porque já não existem distâncias ou impossibilidades para a era da internet – “tudo num só lugar”. Uma das consequências graves disso (digamos, tudo igual), é que as pessoas começam desesperadamente a tentar aparecer como diferentes, levando-nos à uma sociedade altamente midiática. Sabe aquela ideia quixoteana: 
  
fazer-se cavaleiro andante e ir-se por todo o mundo, com as suas armas e cavalo, à cata de aventuras, e exercitar-se em tudo em que tinha lido se exercitavam os da andante cavalaria, desfazendo todo o gênero de agravos, e pondo-se em ocasiões e perigos, donde, levando-os a cabo, cobrasse perpétuo nome e fama. (CERVANTES, 1981, p. 30)


Anda na moda querer fazer “grandes feitos” para angariar fama e sucesso. O problema é que os “grandes feitos” não são mais de cavaleiro andante e sim de androides fúteis (provavelmente minha analogia já seja tão ultrapassada quanto a Idade Média). Enfim, as pessoas imitam para ganhar notoriedade – que contradição!
Mas, existe um mundo ideal celeste, que quer mesmo que sejamos seres imitadores. Outrossim, que sejamos imitadores de Cristo, não de vãs filosofias, não de máquinas eletrônicas, mas de Cristo! Deus quer que sigamos os passos de Jesus: que amemos como Ele amou; sirvamos como Ele serviu; perdoemos como Ele perdoou; e quanto mais pessoas imitarem Jesus mais diferentes elas serão. Porque as pessoas que fazem o que Cristo fez não pertencem à realidade deste mundo, mas à realidade divina - a única e verdadeira!
“Portanto, sede meus imitadores, como também eu de Cristo” (1 Coríntios 11:1), diz-nos o apóstolo Paulo. Entretanto muitos pensam que a Bíblia é pura fantasia. Para esses a vida já está tão ficcionalizada que a Verdade se torna apenas mais uma mentira. Se não quisermos nos perder nas artimanhas desse mundo enganoso, teremos que olhar firmemente para o alvo – JESUS -  e imitá-lo fielmente, meditando em sua Palavra de dia e de noite para que nossas mentes não sejam enganadas e para que nossas vidas não sejam cópias perdidas, mas imitações seladas pela marca de Cristo.