A vida póstuma do cristão



           Muita gente pensa que após a morte há um descanso eterno. Por isso, tentam levar uma vida em ritmo frenético, poucas horas de sono, muito trabalho e investimento em atividades que, segundo consta, só poderão ser efetuadas nesta vida. Brás Cubas, por outro lado, discorda redondamente desse pensamento, uma vez que resolve escrever suas memórias depois de morto, sendo, portanto, um “defunto autor” (cap. I, p. 17). Ele nos mostra que no além-túmulo é possível produzir, e produzir com sinceridade, pois sem as amarras sociais, fica livre para escrever e dizer a verdade.
Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. (cap. XIV, p. 55)
          Seja como for, a vida de Brás Cubas é póstuma. O leitor ingênuo se aterá aos acontecimentos narrados acerca de sua vida quando estava vivo. Por sinal, foi uma vida medíocre e que não rendeu nenhum fruto “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” (cap CLX, p. 176). Mas, o leitor arguto, observará que há mais relevância no Brás morto. Importa muito mais o Brás escritor, porque este Brás aponta para o texto como centro de tudo. Ele deixa de ser o centro, como é em vida, e morto, o texto é tudo.
          A genialidade de Machado de Assis ao criar esse defunto autor me faz pensar na vida cristã sob uma perspectiva diferente. Faz-me pensar que a vida do cristão também é póstuma. Pois, para sermos de Cristo precisamos morrer para este mundo e para o pecado. A partir dessa morte, passamos a viver uma nova vida. Uma vida além-túmulo-espiritual. Agora, podemos olhar não para nós mesmos, mas para Cristo. Ele passa a ser o centro, o Tudo. Daí, nossas vidas devem ser transformadas segundo os princípios deixados na Palavra de Deus para que o espectador arguto ao olhar para nós veja o que realmente importa: Cristo. Diante disso, percebemos que não temos, digamos, um descanso eterno, mas agora que estamos mortos é que vivemos e temos muito o que fazer: amar, servir, perdoar, andar como Jesus. Pois, certamente, “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.” (Gálatas 2:20)
          Do mesmo modo que em Brás Cubas encontramos duas linhas do tempo, a vida antes da morte, e a vida depois da morte, nós também caminhamos assim, como em mundos paralelos numa jornada de Tidus (Final Fantasy X) – enfrentando obstáculos e inimigos difíceis até chegar ao portal perto do castelo de Ultimecia -, ou, de Dante – que estando ainda vivo, viaja entre os mortos do Inferno e passa pelo Purgatório (trava embates com poetas mortos e sofre as dificuldades para ultrapassar esses lugares sombrios) até chegar ao último céu, onde lhe é dado contemplar a essência divina. Assim, nossas vidas, longe de encerrarem com a morte, na verdade, começam a ser verdadeiras e frutíferas vidas depois que morremos para tudo que não se chama Jesus Cristo!

4 comentários:

  1. Muito legal!

    Parabéns pelo texto Priscila!!!

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  2. Valeu, TJ! Quero ler seus textos aqui também!

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  3. Pri, que ótima reflexão! Pois é, este é o paradoxo do cristão: morrer para viver. É morrendo para o mal, para o mundo, para o pecado, para a carne, que vivemos o bem, a vida eterna, a santidade, o Espírito. É deixando de lado as coisas medíocres que nos tornamos melhores. A vida cristã é um segundo nascimento por isso.

    Precisamos morrer para a vida antiga (que nem era vida) para vivermos, de fato, a vida. É como um processo de zumbificação ao contrário: éramos zumbis (sem vontade própria, seguindo o desejo de nossa carne putrefata, andando sem destino e sem razão) e, através do sangue de Cristo (que nunca foi contaminado com o vírus da zumbificação) nos curamos e voltamos à vida, passamos a viver de fato (livres para agir, para escolher, para seguir algo maior que nossos desejos, que nossas vontades e com um objetivo na vida: seguir àquele que nos curou e levar outros a serem curados também).

    Poxa, Pri, tá vendo que massa? olha quantas coisas legais seu texto me levou a pensar!!! Você é ótima. Continue inspirada assim e escreva sempre aqui no blog! Amo você! É ótimo ter uma namorada tão inteligente e inspiradora!

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  4. Wesslen, seus comentários sempre me ajudam a olhar novamente para o texto e tirar mais lições ainda! É muito bom pensar sobre as coisas de Deus, porque isto nos traz conforto e novo ânimo.Saber que deixamos de ser manipulados pela morte e renascemos para uma vida livre e plena no Senhor, é maravilhoso! Ele não nos quer como bonequinhos, marionetes, Ele quer homens e mulheres que o louvem, que o sirvam e que busquem uma vida de santidade a cada amanhecer.
    Deixemos, pois, de ser como Israel no deserto reclamando pela carne do Egito, quando muitas vezes queremos novamente tomar postura de "zumbis", mas sejamos felizes, gratos e ativos na verdadeira vida com Cristo!

    Obrigada por compartilhar sua leitura e por estar sempre envolvido com as coisas de Deus e me ajudando a buscá-lo também cada vez mais! Tenho aprendido tanto com você! E foram seus textos aqui que me inspiraram e me inspiram! Amo muito você! Você é o meu presentão de Deus, a minha bênção e o meu companheiro ideal para caminhar junto nessa vida póstuma!

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