Convicção ou Teimosia!?




“Será convicção ou teimosia esse velho jeito de pensar?
Estar aportado, cônscio demais, é demasiado árduo, pesa tanto quanto âncora...

Quem disse que quero vislumbrar a vista do porto?
Quem disse que há graça em ver todo mundo chegar depois da tempestade e só você seguro em bonanças? Nunca vi viajar sem sair do lugar.

Pois, eu digo: quero destratar meus medos, quero pensar todo dia diferente... um rio intermitente... às vezes seca; às vezes cheia... às vezes eu... às vezes desconhecido... às vezes salvo... às vezes náufrago... às vezes riso... às vezes descontentamento... às vezes grito; ás vezes silêncio mortal... e daí?...

Porto é lugar para onde se deve voltar algumas vezes e por algum motivo...
Porto não é lugar para permanecer ancorado a vida toda!”

Sanji, um homem com determinação


http://fc08.deviantart.net/fs51/f/2009/281/4/f/Free_gif___Sanji_Heart_by_gregsep.gif


No anime One Piece, meu personagem favorito é o cozinheiro Sanji. Não, eu não sei cozinhar bem (às vezes, arrisco-me na cozinha, mas é raro e nada complexo demais. Mas ainda pretendo aprender alguma coisa... Enfim!). Mais do quê o espadachim Zoro, ou o capitão do navio, Luffy, entre os demais "chapéus de palha" gosto da personagem Sanji por dois motivos: 1) as caras e bocas que ele faz quando vê uma garota bonita (Mellorine!!! hauhauhauhau! Meus amigos sabem do quê estou falando); 2) Sua determinação em seguir seus preceitos.

Sanji possui duas grandes determinações de vida, dois grandes preceitos: o primeiro, é não deixar, se estiver ao seu alcance, alguém passar fome; o segundo, é nunca, nunca, nunca, bater em uma mulher. Por conta de um episódio em sua infância, em que quase morreu de fome preso em uma rocha no meio do oceano, Sanji se determinou a nunca deixar alguém passar pela mesma experiência que ele e, mesmo que seja um inimigo, servir uma refeição à pessoa faminta. Por conta de seu affair com garotas (ele fica extremamente bobo e tem atitudes exóticas perto de garotas bonitas), ele também se determinou a nunca bater em uma mulher, mesmo que isto lhe custe a vida.

Em um dos primeiros episódios em que Sanji aparece, ele serve comida a um pirata que aparece faminto no navio-restaurante em que ele trabalha. Mesmo sabendo que o pirata, após recompor-se da fome, poderia tentar roubar o navio ou planejar algo contra ele, Sanji não esmorece e serve uma ótima refeição ao pirata, sem nem sequer cobrar-lhe um centavo por ela. Da mesma forma, quando do resgate de Robin em Enies Lobby, Sanji tem de lutar com uma bela mulher, Kalifa, que é membro da CP9 e fora enviada para eliminar os "chapéus de palha". Ele apenas tenta se proteger de seus golpes, pois ele prefere morrer a bater em uma mulher. De fato, ele quase morre, Nami foi quem teve de lutar contra Kalifa para que Sanji não morresse.

Este tipo de atitude é raro. Estava pensando em meu próprio comportamento e em como, muitas vezes, abandono meus preceitos por medo, insegurança ou pelo prejuízo que posso ter caso sustente uma determinação. Minhas determinações ainda são muito fracas. Quantas vezes não me saboto e me "condeno naquilo que aprovo"? Reconheço o bem e tenho consciência do que é bom, mas ainda assim pratico o que não concordo para que eu não saia prejudicado ou para que as consequências me sejam "favoráveis". Muitas vezes, praticar o bem ou o que é bom nos dará prejuízo e não vantagens imediatas. Comprometer-se com alguém ou algo nos dará mais responsabilidades e trará mais exigências e não o contrário.

Em um belíssimo salmo, o poeta questiona a Deus quem poderia estar mais próximo dEle, quem seria digno de conviver com o Todo-poderoso:

"Senhor, quem habitará no teu santuário? Quem poderá morar no teu santo monte? Aquele [...] que mantém a sua palavra, mesmo quando sai prejudicado," (Salmo 15.1,2a e 4b).

Entre outras virtudes, a de manter sua palavra é vista como atitude de quem é digno de estar na presença de Deus, mesmo que isto lhe custe ou lhe dê prejuízo. Ser íntegro, muitas vezes envolve sair prejudicado de alguma situação. A recompensa do íntegro não está em ter "lucro" por sua honestidade, mas em praticar aquilo que aprova. A satisfação do íntegro não está nos "dividendos" (sejam de quaisquer espécie, até mesmo morais), mas em fazer aquilo que sua consciência afirma ser o correto.

Tenho pedido a Deus para que nunca chame o mal de bem e nem o bem de mal. Quero reconhecer o que é bom quando o vir, mesmo que este bem "me prejudique". Quero desenvolver uma determinação tão forte que eu seja capaz de morrer por ela. Exagero? Não, integridade. Isso não quer dizer que o íntegro será um intransigente. Quer dizer que o íntegro será alguém plenamente consciente de seus valores e ideais. O íntegro é capaz de explicar seus preceitos, pois ele está consciente deles. Pode ser que desenvolvamos determinações diferentes ao longo da vida, ou que mudemos algumas delas devido à uma mudança de consciência, não há problema nisso. O que não pode ocorrer é a mudança por causa do possível ou provável prejuízo que teremos.

Tudo isso soa muito estranho em um tempo onde o que importa é a "vantagem" que se terá. No entanto, para nós cristãos, o que importa não são as vantagens imediatas que poderemos receber nesta vida. Como C.S. Lewis disse, "Você não tem uma alma. Você é uma alma. Você tem um corpo". Daí que "dar a outra face", "entregar também a túnica" ou "arrancar o olho direito" não são prejuízos, são investimentos naquilo que é eterno. A vida cristã é uma vida que envolve sacrifícios e aflições (Jesus nos mostrou isso claramente). Será necessário perder para ganhar, será necessário dar para receber, será necessário morrer para viver... Será que estou disposto a tanto? Meu único pedido é que o Senhor me dê ouvidos atentos para ouvir e praticar esta palavra. Amém!

O que eu realmente quero é...

http://1.bp.blogspot.com/_eWTloUq0yew/THwWlKj6jFI/AAAAAAAACoA/YO59uaJP2p4/s200/surprise_box.gif

Não, não é chocolate! (Mais uma para a lista de piadas infames e sem graça do Wesslen Nicácio). A ideia desse texto me surgiu a partir da releitura de "O peso de glória", um dos ensaios do livro homônimo de C. S. Lewis. "Jack" sempre me faz pensar (acho que pelo tempo de convivência já posso chamá-lo como seus amigos chamavam) e me inquieta, o que é muito bom, porque sempre me faz querer buscar respostas para estas inquietações.

Neste ensaio, Mestre Lewis nos fala de como nosso desejo mais profundo será realizado na eternidade com Cristo e de como isso pode nos parecer tão pouco convidativo à princípio. Ele nos fala de como nossos desejos dão uma ideia pálida daquilo que realmente queremos. Temos diversas ideias de céu e paraíso, que são imagens da realização plena de todos os anseios e desejos, mas aquilo que lemos na Bíblia, ou vemos em pinturas e descrições nem sempre nos apetece. Em um trecho, ao se debruçar sobre as escrituras para compreender o que de fato seria a "Glória" prometida aos fiéis, ele diz que, Tendo deixado, por um momento, de considerar meus próprios desejos, comecei a aprender melhor o que eu de fato queria. Essa constatação de mestre Lewis, especificamente este trecho, me levou diretamente a uma questão mais profunda, que o próprio Jack já tratou em outros livros: a luta da carne contra o espírito.

Logo, me veio um exemplo à mente: o momento quando temos muita raiva de alguém. A princípio, nosso desejo (movido pela raiva) é simplesmente de esganar a pessoa, ou vingar-se, ou retribuir com a mesma ação ou ainda ferí-la com palavras. Mas, de fato, nosso querer, nosso desejo profundo, não é esse. O que de fato queremos quando temos raiva por algo que alguém nos fez ou disse é que haja justiça. Perceberam a diferença? Passamos de algo mesquinho e pequeno como "esganar alguém" para algo nobre, verdadeiro e bom: "Justiça".

Pra mim, é claro o embate: trata-se da velha rixa entre carne e espírito. A carne, corrompida juntamente com a natureza (que está submetida ao príncipe deste mundo - vide os posts "Singularidade" aqui no blog) foi posta em um nível deturpado do que é realmente bom e procede de Deus: o espírito. Deus plantou a eternidade em nossos corações e isso quer dizer não apenas o desejo de viver para sempre, mas de fazer parte de tudo o que permanece, de tudo o que é: a luz, o bem, a verdade, a vida. Quando percebemos os substântivos antagônicos destas palavras vemos que eles conceituam ausências: a escuridão, a ausência de luz; o mal, a ausência do bem; a mentira, como a ausência da verdade; a morte, como a ausência da vida. Ou seja, elas não são ideias em si, mas em relação com o que de fato é. E aquilo que é, é eterno.

Quando desejamos esganar alguém, damos vazão à corrupção do desejo verdadeiro: justiça. O que queremos mais profundamente é que o bem prevaleça, que não nos façam mal, pois o bem é o equilíbrio e o mal o desequilíbrio. No entanto, se obedecermos o desejo da carne corrompida, nos distanciaremos do bem que queremos e praticaremos o mal que detestamos. O Espírito em nós, fortalece nosso espírito e nos leva, processualmente, para perto do que é bom, puro, verdadeiro, luminoso e vivo.

É assim que, quando deixamos de pensar e agir apenas de acordo com o que desejamos, seguindo o que nos dá vontade de fazer, é que podemos aprender mais sobre o que de fato queremos. Quando, ao invés de esganar alguém, eu paro e penso no que de fato quero, perceberei que quero que seja feita justiça. Essas ideias de justiça, verdade, bem, alegria, pureza estão plantadas em nós devido à presença do espírito, que voltará para Deus. Compartilhamos, assim, duas naturezas: uma carnal, corrompida juntamente com a natureza e este mundo, e a espiritual, que mantém as sementes da eternidade, das coisas que são. A questão é não focar no desejo impulsivo, mas em buscar o real querer.

Quando paramos para analisar a maioria de nossos desejos, veremos que eles escondem um querer muito mais profundo e verdadeiro: o desejo de transar é na verdade um querer ser amado/a e querido/a; o desejo de possuir muitos bens é na verdade um querer desfrutar de conforto e bem-estar; o desejo de ser melhor que os outros é na verdade um querer ser reconhecido e ser apreciado pelos meus pares. Coisas eternas, nobres, verdadeiras e boas foram corrompidas em coisas momentâneas, mesquinhas e pequenas.



Acho que devo acrescentar, em relação a estes desejos, que, necessariamente, eles não são ruins. O problema é quando eles se tornam um fim em si mesmos, ou seja, quando eles não são parte da manifestação do querer mais profundo (a prática sexual como fruto da manifestação de amor e carinho no casamento; o desejo de ser melhor como manifestação do querer servir melhor aos meus amigos e irmãos). Assim, a corrupção está em tornar estes desejos mais importantes que o querer profundo. Torná-los um fim em si mesmos é diminuí-los, mediocrizá-los e amesquinhá-los. Isso é o que podemos chamar de perversão, pois Cristo já deixou claro que "nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus", ou seja, não devemos viver para suprir nossos desejos imediatos, mas buscar o que é eterno.


O ponto maravilhoso do artigo de C.S. Lewis, para mim, é quando ele nos lembra de que nossa natureza caída também será transformada e experimentaremos o melhor dos dois mundos. A carne também foi feita para Deus e se agora ela está corrompida ela será glorificada e compartilharemos de um corpo glorioso em que não haverá mais disputa, mas apenas harmonia. Ponto em que não teremos mais falta, produzida pelo desejo e pelo querer, porque seremos realizados: seremos. Desta forma, todos nossos desejos estarão satisfeitos porque eles serão em nós, por meio de Cristo.