O que eu realmente quero é...

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Não, não é chocolate! (Mais uma para a lista de piadas infames e sem graça do Wesslen Nicácio). A ideia desse texto me surgiu a partir da releitura de "O peso de glória", um dos ensaios do livro homônimo de C. S. Lewis. "Jack" sempre me faz pensar (acho que pelo tempo de convivência já posso chamá-lo como seus amigos chamavam) e me inquieta, o que é muito bom, porque sempre me faz querer buscar respostas para estas inquietações.

Neste ensaio, Mestre Lewis nos fala de como nosso desejo mais profundo será realizado na eternidade com Cristo e de como isso pode nos parecer tão pouco convidativo à princípio. Ele nos fala de como nossos desejos dão uma ideia pálida daquilo que realmente queremos. Temos diversas ideias de céu e paraíso, que são imagens da realização plena de todos os anseios e desejos, mas aquilo que lemos na Bíblia, ou vemos em pinturas e descrições nem sempre nos apetece. Em um trecho, ao se debruçar sobre as escrituras para compreender o que de fato seria a "Glória" prometida aos fiéis, ele diz que, Tendo deixado, por um momento, de considerar meus próprios desejos, comecei a aprender melhor o que eu de fato queria. Essa constatação de mestre Lewis, especificamente este trecho, me levou diretamente a uma questão mais profunda, que o próprio Jack já tratou em outros livros: a luta da carne contra o espírito.

Logo, me veio um exemplo à mente: o momento quando temos muita raiva de alguém. A princípio, nosso desejo (movido pela raiva) é simplesmente de esganar a pessoa, ou vingar-se, ou retribuir com a mesma ação ou ainda ferí-la com palavras. Mas, de fato, nosso querer, nosso desejo profundo, não é esse. O que de fato queremos quando temos raiva por algo que alguém nos fez ou disse é que haja justiça. Perceberam a diferença? Passamos de algo mesquinho e pequeno como "esganar alguém" para algo nobre, verdadeiro e bom: "Justiça".

Pra mim, é claro o embate: trata-se da velha rixa entre carne e espírito. A carne, corrompida juntamente com a natureza (que está submetida ao príncipe deste mundo - vide os posts "Singularidade" aqui no blog) foi posta em um nível deturpado do que é realmente bom e procede de Deus: o espírito. Deus plantou a eternidade em nossos corações e isso quer dizer não apenas o desejo de viver para sempre, mas de fazer parte de tudo o que permanece, de tudo o que é: a luz, o bem, a verdade, a vida. Quando percebemos os substântivos antagônicos destas palavras vemos que eles conceituam ausências: a escuridão, a ausência de luz; o mal, a ausência do bem; a mentira, como a ausência da verdade; a morte, como a ausência da vida. Ou seja, elas não são ideias em si, mas em relação com o que de fato é. E aquilo que é, é eterno.

Quando desejamos esganar alguém, damos vazão à corrupção do desejo verdadeiro: justiça. O que queremos mais profundamente é que o bem prevaleça, que não nos façam mal, pois o bem é o equilíbrio e o mal o desequilíbrio. No entanto, se obedecermos o desejo da carne corrompida, nos distanciaremos do bem que queremos e praticaremos o mal que detestamos. O Espírito em nós, fortalece nosso espírito e nos leva, processualmente, para perto do que é bom, puro, verdadeiro, luminoso e vivo.

É assim que, quando deixamos de pensar e agir apenas de acordo com o que desejamos, seguindo o que nos dá vontade de fazer, é que podemos aprender mais sobre o que de fato queremos. Quando, ao invés de esganar alguém, eu paro e penso no que de fato quero, perceberei que quero que seja feita justiça. Essas ideias de justiça, verdade, bem, alegria, pureza estão plantadas em nós devido à presença do espírito, que voltará para Deus. Compartilhamos, assim, duas naturezas: uma carnal, corrompida juntamente com a natureza e este mundo, e a espiritual, que mantém as sementes da eternidade, das coisas que são. A questão é não focar no desejo impulsivo, mas em buscar o real querer.

Quando paramos para analisar a maioria de nossos desejos, veremos que eles escondem um querer muito mais profundo e verdadeiro: o desejo de transar é na verdade um querer ser amado/a e querido/a; o desejo de possuir muitos bens é na verdade um querer desfrutar de conforto e bem-estar; o desejo de ser melhor que os outros é na verdade um querer ser reconhecido e ser apreciado pelos meus pares. Coisas eternas, nobres, verdadeiras e boas foram corrompidas em coisas momentâneas, mesquinhas e pequenas.



Acho que devo acrescentar, em relação a estes desejos, que, necessariamente, eles não são ruins. O problema é quando eles se tornam um fim em si mesmos, ou seja, quando eles não são parte da manifestação do querer mais profundo (a prática sexual como fruto da manifestação de amor e carinho no casamento; o desejo de ser melhor como manifestação do querer servir melhor aos meus amigos e irmãos). Assim, a corrupção está em tornar estes desejos mais importantes que o querer profundo. Torná-los um fim em si mesmos é diminuí-los, mediocrizá-los e amesquinhá-los. Isso é o que podemos chamar de perversão, pois Cristo já deixou claro que "nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus", ou seja, não devemos viver para suprir nossos desejos imediatos, mas buscar o que é eterno.


O ponto maravilhoso do artigo de C.S. Lewis, para mim, é quando ele nos lembra de que nossa natureza caída também será transformada e experimentaremos o melhor dos dois mundos. A carne também foi feita para Deus e se agora ela está corrompida ela será glorificada e compartilharemos de um corpo glorioso em que não haverá mais disputa, mas apenas harmonia. Ponto em que não teremos mais falta, produzida pelo desejo e pelo querer, porque seremos realizados: seremos. Desta forma, todos nossos desejos estarão satisfeitos porque eles serão em nós, por meio de Cristo.

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