"Hable con ella"


"Hable con ella" é um dos grandes e polêmicos filmes de Almodóvar. Seus filmes atraem não só porque adentram o psicológico de suas personagens, mas principalmente pelo seu caráter ambíguo, isto é, o espectador sai do filme sem fechar nenhuma questão, pelo contrário, transborda de reflexões e questionamentos. Esse caráter ambíguo também é valorizado na literatura de qualidade, naquela que direciona o olhar do leitor não para o que é dito, mas para o como a coisa é dita, ou seja, a forma como o texto é construído. Um bom exemplo disso é o romance "Dom Casmurro", de Machado de Assis. Ao finalizar a leitura, é impossível condenar ou absolver Capitu, uma vez que o livro não define se ela traiu realmente ou não Bentinho, porque o leitor tem apenas a versão deste, que não é confiável por falar de seus sentimentos, da sua visão dos acontecimentos. Nos filme de Almódovar, acontece o mesmo; pouco importa se a personagem é boa ou má, o interessante é a forma como ela é construída. Sendo pois, literatura e cinema, artes muito ambíguas.

Bem, em linhas gerais, o que se passa em "Hable con ella" é a história de um enfermeiro, Benigno, que ao ministrar dedicação exclusiva a uma paciente que fica em coma por quatro anos depois de um acidente de carro, alimenta sua paixão por ela e fé em sua recuperação a ponto de falar com ela o tempo inteiro como se ela o correspondesse, ainda que nem abrisse os olhos. Ele demonstra uma perseverança e um cuidado incansável em manter comunicação com ela. Lia para ela quase todas as noites. Assistia aos filmes que ela gostava - cinema mudo - para contá-los todos a ela. Acontece, então, um dia que ela é engravidada. Claro que todos no hospital suspeitaram e condenaram Benigno. Entretanto, o filme é construído de tal maneira que é impossível afirmarmos com certeza que tenha sido ele o autor do abuso; permanecendo, assim, ao final do filme o tal caráter ambíguo.

Tomando a literatura e o cinema como base de algumas reflexões acerca da vida cristã, não podemos dizer que a ambiguidade sirva de exemplo para nós. Porque na Bíblia temos claramente que a palavra e o proceder do cristão devem se pautar no "sim, sim, não, não" ( Mateus 5:37). O cristão não pode servir a dois senhores "porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro."  (Lucas 16:13). Assim, para o Senhor importa tanto o que nós falamos e fazemos como a forma como falamos e agimos. O que, porém, nos ajuda a pensar sobre as coisas do alto nesse filme de Almodóvar, é justamente a importância da comunicação e do falar. Desde o título do filme, há uma forte referência a isso. A personagem principal fala insistentemente com alguém que não pode ouvi-lo. Ora, não somos também assim nós os cristãos? Fomos chamados por Deus para falar do Evangelho a toda a criatura "em tempo e fora de tempo" (2 Timóteo 4:2). Porque se temos de nos orgulhar de alguma coisa neste mundo é do "evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego." (Romanos 1:16)

Entretanto, como nos mostra o profeta Ezequiel, essa tarefa não é fácil, uma vez que as pessoas para quem falaremos do Evangelho não podem/querem nos ouvir por sua ignorância e rebeldia. "Mas tu lhes dirás as minhas palavras, quer ouçam quer deixem de ouvir, pois são rebeldes." (Ezequiel 2:7) Deus nos instrui, do mesmo modo que Benigno, a falar quer sejamos ouvidos ou não. Isso exigirá de nós perseverança e confiança no Senhor, pois Ele fará a parte dEle em tempo oportuno. Para o evangelho e para a vida cristã, no entanto, não há ambiguidade; se somos filhos/servos de Deus, não há como não falar insistentemente acerca da salvação em Cristo Jesus para os ímpios e para os justos (Ezequiel 3:19-20). Caso contrário, o sangue deles serão requeridos das nossas mãos (Ezequiel 3:18). Deus não ficará dividido, como os leitores de Bentinho ou os espectadores de Benigno. Para o Senhor o julgamento é justo e perfeito. Não há meio termo para a sua ordem: fale as minhas palavras! E "quem ouvir ouça, e quem deixar de ouvir, deixe." (Ezequiel 3:27). Saiamos do coma espiritual e sejamos  proclamadores inflamados do Evangelho!

DeLorean DMC-12


       "Era uma vez..."  é mais do que uma expressão temporal, é a fórmula que inicia todos os contos de fadas. O interessante é que apesar de iniciar o conto, ela não se refere exatamente ao início da história que será narrada. Pelo contrário, ela nos leva ao passado onde a história já aconteceu. Mais ainda, ela já nos remete diretamente ao final da história, porque sabemos que ao final de um "era uma vez..." sempre ouviremos/leremos um "felizes para sempre". É por causa disso, isto é, por conhecermos o final da história - a felicidade eterna -, e não precisamente o seu início e meio, que todos sonham em viver um conto de fadas.

Na tentativa de tornar a fantasia em realidade, o ser humano busca através de seus recursos mais científicos, racionais, matemáticos e lógicos materializar este "era uma vez...", construindo uma máquina do tempo! Assim como o "era uma vez" nos leva ao passado e podemos viver um mundo "encantado", a máquina do tempo nos faria voltar ao passado e viver o sonho de corrigir erros, de aproveitar momentos fugazes, de reencontrar pessoas que se foram, restaurar relacionamentos quebrados, refazer escolhas. Enfim, seria perfeito! 

Em 1985, o filme "De volta para o futuro" imortalizou a famosa máquina do tempo: DeLorean DMC-12 - um carro desportivo modificado, alimentado por uma fissão nuclear e movido pelo plutônio como combustível que vai gerar a eletricidade necessária para fazer com que o carro funcione de maneira a viajar no tempo. A condição para isso era o carro atingir a velocidade de 88 milhas por hora. A máquina do tempo foi um sucesso, o protagonista da história viajou trinta anos no tempo, e viveu algumas aventuras, mudando o futuro ao salvar o Dr. Brown. 

Pois bem, olhando assim panoramicamente, parece perfeito! Mas quando observarmos telescopicamente, não escapamos de enxergar os detalhes de percurso. Nos contos de fadas, entramos na máquina do tempo sabendo que tudo terminará bem para sempre, mas para isso, o príncipe precisa deixar o castelo, com todo o luxo e conforto, para atravessar florestas mágicas onde é atacado por monstros, e enfrentar muitos obstáculos até chegar ao castelo, onde ainda não é o fim, há que matar o dragão, para então escalar até a torre mais alta, onde encontrará a princesa. Ah, pensam que termina aí, não, eles têm que fazer o caminho de volta, preparar a festa de casamento - coisa nada fácil (risos) - para finalmente selarem "o felizes para sempre". Ufa! Se olharmos só para uma parte da história, poderemos ter concepções equivocadas. Veja o caso do "De volta para o futuro". A máquina do tempo parecia um grande invento, mas, na primeira viagem, Marty fica preso em 1955, conhece seus pais. Sua mãe se apaixona por ele. Ele enfrenta o desafios consequentes desses atos para conseguir corrigir esse erro, a fim de que o futuro não seja modificado, pelo menos não com relação a sua família. Entretanto, essa primeira viagem acontece porque o Dr. Brown é baleado e Marty ao fugir no DeLorean atinge as 88 milhas. Ele não pode deixar que o Dr. morra, então essa parte ele conserta para que o final seja totalmente, por assim dizer, feliz.

Toda essa reflexão me faz perceber que embora a vida real não seja uma fantasia nem um filme de ficção científica, nós temos um "era uma vez..." cem por cento verdadeiro: "No princípio criou Deus..." (Gn. 1:1). Quando a Bíblia coloca essa expressão temporal no início de seu relato, ela não aponta apenas para um início, aponta simultaneamente para o início e o fim de todas as coisas - DEUS! ("Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, o primeiro e o derradeiro." Apocalipse 22:13). E aponta ainda para o início e o fim da história da humanidade - JESUS CRISTO! ("Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos[...]" Atos 17:28). Pois somos "criados em Cristo Jesus" (Ef. 2:10) para "a vida eterna" (Jo 3:16).

Mais uma vez, olhando assim panoramicamente, tudo é perfeito! E é mesmo!! Mas é como vimos, perfeito e não fácil! A Bíblia é o nosso DeLorean. Através dela viajamos ao passado e também ao futuro. Conhecemos um começo e um fim gloriosos, porém entre Gênesis e Apocalipse há muitas provas e desafios que precisam ser vencidos através de uma vida cristã firmada na fé e na Palavra de Deus! Temos que olhar a história como um todo para não nos equivocarmos, achando que os finais felizes acontecem como num passe de mágica. Aos que creem em Jesus, a vida eterna está garantida. Mas como você quer se apresentar diante de Deus? Marty viajou no tempo, mas fez uma enorme bagunça e para voltar ao futuro perfeito, precisou se esforçar para consertar tudo. Do mesmo jeito, para voltarmos ao futuro já certo, prometido e planejado para nós, precisamos nos esforçar para corrigir nossos erros, nos arrepender diariamente dos nossos pecados, viver em oração e vigilância constantes, para que tenhamos comunhão com o nosso Pai e nos apresentemos perfeitos "como obreiros (filhos) que não têm do que se envergonhar" (I Tm 2:15) preparados para desfrutar do nosso tão perto "felizes para sempre"!!!

“A viagem de Chihiro”




Há algum tempo assisti a esse filme infantil nada inocente. Por trás da personagem principal de apenas dez anos e da história cheia de fantasia, encontram-se reflexões profundas sobre assuntos que interessam a todo ser humano. Para início de conversa, Chihiro estava muito insatisfeita porque estava de mudança para uma nova casa. Pois bem, nem todas as mudanças são boas, mas temos de lidar com todo tipo de mudança em nossas vidas diárias, da mais simples mudança de tempo a uma mudança de emprego, de endereço, de relacionamento, de personalidade. E se todas essas mudanças fossem requeridas de você de uma só vez? Parece assustador, não? Parece sim. Entretanto o que torna a mudança algo assustador é o fator desconhecido. No caso da Chihiro, antes de chegar a seu novo endereço, ela atravessou um túnel e ficou presa numa cidade cheia de espíritos que a queriam subjugar ou devorar. Era um lugar totalmente desconhecido pelo qual ela teve que descobrir dentro de si a coragem e a firmeza em sua personalidade para enfrentar todos os obstáculos até conseguir retomar sua verdadeira vida.

Pois bem, no nosso caso, os cristãos, a viagem cheia de mudanças é ainda mais alucinante, porque não temos que nos preocupar apenas com nossas próprias vidas, ou com a vida da nossa família apenas. Mas temos que tentar sair da “cidade dos espíritos” como o máximo de seres humanos que conseguirmos salvar através da pregação do Evangelho!

Quando aceitamos a Cristo como nosso Senhor e Salvador, somo como crianças, como a Chihiro, crescendo e nos firmando no caminho da fé, da vida cristã, que é cheia de aventuras e desafios! E assim como a Chihiro tem o Haku, o Kamaji e a Lin para ajudá-la, nós não estamos sozinhos nessa, temos nosso Deus e Pai, seu Filho Jesus Cristo e Seu Espírito Santo nos auxiliando, guiando, ensinando e fortalecendo! (“Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” João 16:33).

Cristo operou em nós todas essas grandes mudanças: uma casa no céu, um relacionamento perfeito, uma personalidade cristã! Mas ainda há muitas pessoas que não alcançaram essas mudanças. Por isso, cada pessoa que a recebe se torna responsável de aprender cada vez mais de Deus para levar essas mudanças a outras pessoas. Por isso, nós cristãos, somos também chamados de discípulos! Chihiro aprendeu com as pessoas que a ajudaram e foi em busca de salvar seus pais, que logo no início do filme são transformados em porcos por comerem a comida proibida. Eles eram seu alvo! Nós precisamos fazer o mesmo, precisamos salvar as pessoas que estão presas no mundo de espíritos que querem subjugá-las e devorá-las, para que elas venham para a luz e conheçam a mudança que traz vida e libertação! (“Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão.” Gálatas 5:1).

Cristo nos chamou para uma viagem que mudou completamente as nossas vidas: “E depois disto designou o Senhor ainda outros setenta, e mandou-os adiante da sua face, de dois em dois, a todas as cidades e lugares aonde ele havia de ir.” (Lucas 10:1). Para fazer proezas e coisas maravilhosas em seu Nome: “E curai os enfermos que nela houver, e dizei-lhes: É chegado a vós o reino de Deus.” (Lucas 10:9). Com poderes que vêm dEle: “Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum.” (Lucas 10:19) Que nos farão sujeitar os espíritos que ora atormentam aqueles que ainda estão cativos. Lembrando-nos, contudo, de não nos esquecer de quem somos, somos os discípulos, por isso “não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus.” (Lucas 10:20). Porque fazendo assim estaremos cumprindo o nosso chamado e sendo gratos ao nosso Salvador que nos livrou da condenação eterna! “Naquela mesma hora se alegrou Jesus no Espírito Santo, e disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste às criancinhas; assim é, ó Pai, porque assim te aprouve.” (Lucas 10:21)

Uma certeza que não deixa dúvida: Jesus salva!



     Você já se sentiu encurralado, sufocado, perdido, sem saber para onde ir, sem enxergar direito o caminho? Acho que todo mundo uma vez na vida já se sentiu assim. Isso acontece porque o ser humano está submerso em uma nuvem de confusão, como diz o salmista em momento de grande aflição e perseguição: “a confusão cobriu o meu rosto.” Salmos 69:7.
     A confusão que encobre o rosto de Davi é a mesma que encobre o rosto dos cristãos hoje. Pois ainda somos tentados pelas mesmas setas inflamadas do maligno, da nossa própria carne e deste mundo, que nos rodeia e nos assedia com toda a sorte de seduções enganosas. Essa confusão se intensifica quando preferimos olhar atentamente para ela ao invés de fixar os nossos olhos em Cristo! Davi não se deixou tragar pela confusão, mas passou por ela em oração constante e fervorosa, rogando com todas as forças a Deus que o livrasse e derramasse sobre ele a sua misericórdia: “Eu, porém, faço a minha oração a ti, Senhor, num tempo aceitável; ó Deus, ouve-me segundo a grandeza da tua misericórdia, segundo a verdade da tua salvação.” Salmo 69: 13.
     Quando Davi, perseverantemente, ora ao Senhor, ele reconhece duas coisas preciosas que só vêm do nosso Deus: “a verdade da tua salvação”! Dito dessa maneira, temos a verdade como uma qualificação da salvação de Deus, ou seja, a salvação do Senhor é verdadeira. Qualificada assim a salvação de Deus, temos que o próprio Deus é a verdade. Porque não há como ser verdadeira apenas uma parte dEle, ainda mais quando essa parte envolve a humanidade como um todo. De modo que a sua salvação é verdadeira para aqueles que a aceitam, assim como Ele é a verdade que desfaz toda a confusão e que instaura a luz e que abre os nossos olhos e que nos livra da perdição eterna! A verdade da salvação de Deus nos faz enxergar todas as coisas pela sua ótica limpa, santa, perfeita! Nos faz ver a própria Verdade através da sua salvação, isto é, do resgate com o qual Ele nos purifica de todo o pecado e de toda a confusão: o sangue precioso de jesus Cristo! “Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado.” I João 1:7.
     Um grande escritor cristão concorda com Davi, quando escreve “Acredito no Cristianismo como acredito que o Sol nasceu, não apenas porque eu o vejo, mas porque por meio dele eu vejo todo o resto.” (C.S. Lewis, O peso de glória, p. 134). C.S. Lewis apresenta o Cristianismo como a Verdade – a lente pela qual vemos tudo claramente, sem confusão. A lente pela qual enxergamos pelo sangue de Cristo, pela salvação do nosso Deus! O Cristianismo não é uma religião, um ritual, uma crença mítica, não é um emaranhado de discussões filosóficas que ninguém entende, não é um discurso alienante que procura cegar os seus ouvintes. Nada disso. O Cristianismo é o modo de vida que anda sem tropeçar nas mentiras deste mundo, ou da carne ou de Satanás, porque anda na luz da verdade da salvação de Jesus Cristo, nosso Senhor! 
     “Mas todas as coisas se manifestam, sendo condenadas pela luz, porque a luz tudo manifesta.” Efésios 5:13