Os "doutores" e a Bíblia


Tenho visto ultimamente em blogs cristãos um fenômeno antigo, mas que tem ganho nova força com a popularização dos meios de comunicação eletrônicos de massa: o pedantismo e a soberba daqueles que vêem no estudo um elemento de diferenciação dentro da igreja, de modo a se destacarem das massas e terem aquele "algo mais", que os permite interpretar a Bíblia, fazer julgamentos e se colocarem como únicos arautos da verdade.

Há na rede, atualmente, diversos blogs que dão voz a um grupo de pessoas cada vez maior no Brasil. Pessoas que consideram o estudo formal em uma universidade, ou em um seminário, uma condição imprescindível para o entendimento da Bíblia, e por conseguinte, para uma prática cristã legítima. Pessoas que acham que um diploma universitário, um título de bacharel, mestre ou doutor em Teologia, faz de seu portador uma autoridade em Bíblia, em Deus, etc., considerando aqueles que não possuem tais títulos, cristãos inferiores. Em geral fanáticos, ignorantes ou manipulados.

Naturalmente, meu objetivo aqui não é condenar o estudo, ou tirar seus méritos e importância. Isso seria loucura. É preciso que se busque o conhecimento, que se adquira um pensamento embasado e que se tenha a compreensão daquilo que a Palavra nos traz. Não desvalorizo o preparo, os seminários ou os cursos de Teologia que existem por aí.

No entanto, um problema que percebo nos discursos dos indivíduos que escrevem nestes blogs é a soberba, acompanhada da arrogância, de desvalorizar aqueles que não fizeram seminário, ou que estudam a Bíblia por ela mesma, sem o apoio de "muletas". Valorizam o conhecimento adquirido com o estudo, em detrimento da revelação. Tais grupos fazem da Bíblia um livro altamente complexo, que deve ser lido a partir de exegetas, de teólogos e doutores do passado, que são os elementos capazes de interpretar a Bíblia para quem os lê. Tais grupos dizem que ler a Bíblia não basta. Vão ainda mais longe, dizem que ler a Bíblia sem o apoio de manuais de Teologia, ou livros de apoio, pode gerar heresias, porque o cristão pode ter um entendimento diferente daquele que os mesmos possuem, criando aberrações teológicas, na visão deles, ou heresias. Fazem a diferença, típica de religiões como o catolicismo, entre clérigos e leigos. Há, na visão deles, um grupo de estudiosos que conhecem realmente as Escrituras, e que são a autoridade no que se refere à doutrina, e há aqueles que devem aprender com eles. Tudo o que for diferente disso está errado e tem que ser combatido. Dito isto, vamos analisar o referido tema, a luz das Escrituras.

O ministério de Jesus durou aproximadamente três anos e meio. Começou na Galiléia, região norte da terra de Israel, na época, província do império romano. Havia naquele período no país dos judeus, muitos mestres e doutores da Lei. Muitos estudiosos das Escrituras, que gozavam de prestígio por parte do povo e que tinham sua posição de mestres como algo extremamente valioso. Porém, quando Jesus escolheu seus doze apóstolos, recrutou homens simples, pessoas rudes, pescadores em sua maioria (Mt 10:2-4). As pessoas simples, os publicanos e as meretrizes, pessoas mal vistas pela sociedade, costumavam seguir Jesus, e foi dentre estes grupos que Jesus fez discípulos. Os doutores em geral, não aceitavam o testemunho do Senhor. Os apóstolos eram galileus (At 2:7), e os galileus eram desvalorizados pelos "entendidos" das Escrituras (Jo 7:52). Os fariseus e saduceus, religiosos da época de Jesus, que detinham o monopólio do sagrado em Israel, sentiram-se ameaçados por Jesus, pois percebiam que o jeito simples e a autoridade de Jesus faziam com que as multidões o seguissem, valorizando-o em lugar dos líderes religiosos tradicionais (Mt 7:28,29).

Há aqui um fenômeno interessante. Os conhecedores das Escrituras, os doutores da Lei, deveriam, segundo a lógica apresentada nos parágrafos iniciais de nosso texto, estar mais aptos a reconhecerem o Messias, uma vez que o próprio Jesus afirmava que as Escrituras dão testemunho dEle. No entanto, foi o grupo daqueles que se proclamavam conhecedores da Lei que rejeitou Jesus, a ponto de confrontá-lo publicamente, e traçarem um plano para o matarem, por meio dos romanos. Os doutores, em sua maioria, rejeitaram Jesus. O povo simples o aceitou, e o seguiu (At 4:13). Os apóstolos não foram formados nas academias dos fariseus, nas escolas rabínicas. Eles receberam a revelação diretamente de Deus.
As pessoas simples sabiam que estavam longe de Deus e aceitavam o testemunho de Jesus. Eles tinham fé para ver os milagres, tinham fé para ver as curas e experimentar coisas sobrenaturais. Já os doutores se consideravam autossuficientes. Não criam nos milagres, valorizavam a forma, a aparência, os rituais, em detrimento da espontaneidade e da liberdade da fé apresentada por Jesus.

Hoje em dia, enquanto as pessoas simples tem fé para ver os milagres, e para buscarem a Deus com o coração humilde, os doutores vêem tudo com olhar de reprovação. Não aceitam os milagres, sempre têm uma explicação lógica e racional para tudo. Não gostam de multidão, não gostam de simplicidade. Para eles a fé é hermética, no sentido de que é para poucos "entendidos", não sendo acessível à multidão. Eles não crêem em revelação, consideram que todos que pregam a Bíblia sem estudar Teologia são hereges, por que só é possível compreender a Escritura a partir de anos de estudo. Não conseguem identificar o agir de Deus. Assim como os fariseus não aceitaram Jesus, nem identificaram os discípulos como servos de Deus, os doutores de hoje não identificam os homens de Deus como tais, apenas aqueles que pertencem a seu grupinho de iluminados. Quando vêem a manifestação do povo de Deus, quando vêem aglomeração, proclamam, com outras palavras, a velha fórmula dos fariseus e saduceus na época de Jesus: "Mas esta multidão, que não sabe a Lei, é maldita"(Jo 7:49).

Estes grupos se consideram legítimos herdeiros da Reforma protestante, e seus defensores, no entanto, acabam indo na direção contrária a dos grandes reformadores. Enquanto a Reforma dizia: só a Escritura, os doutores de hoje dizem: a Escritura, junto com os manuais, os livros de exegese, os tratados teológicos, etc. Enquanto os reformadores lutaram em defesa do livre acesso a Deus, e do "sacerdócio de todos os crentes", os doutores de hoje criam intermediários nos livros, e fazem de um pequeno grupo de estudiosos uma classe diferenciada de cristãos, os exegetas da Escritura. Acabam imitando a prática católica que diz que a Bíblia não pode ser livremente interpretada, mas apenas os líderes da igreja tem competência para entender e ensinar a Bíblia. No catolicismo, houve inclusive o impedimento da leitura da Bíblia por parte do povo. Já Lutero iniciou o movimento reformador a partir da leitura da bíblia, não de algum manual. Afinal, ele conhecia bem os manuais da época, mas o que mudou a vida dele foi a leitura da Escritura, pura e simples.

O próprio Jesus indica a revelação como forma de conhecer a Deus e compreender as Escrituras. Ele disse aos discípulos que, depois da ascensão dEle, o Espírito Santo viria a terra e ensinaria à igreja todas as coisas. O Espírito é aquele que nos guia em toda a verdade, que nos lembra todos os ensinamentos de Jesus (Jo 14:26, Jo 16:13).
Muitas vezes o conhecimento adquirido se torna um tesouro, algo supervalorizado que pode fazer de uma pessoa arrogante, ou soberba. Nesse sentido, o estudo pode se tornar um obstáculo, porque "as coisas espirituais se dicernem espiritualmente"(1Co 2:14). Além disso, não podemos esquecer que "Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes"(Tg 4:16b).

O próprio Jesus certa vez exclamou: "Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos" (Mt 11:25). Como se percebe, a condição para a revelação de Deus é o coração humilde, não os anos de estudo. O próprio Paulo, homem culto e profundo conhecedor das Escrituras, foi a princípio perseguidor da igreja. Ele fazia questão de ser simples em suas pregações, e separar a "sabedoria humana" da revelação de Deus. Em um trecho da primeira epístola aos coríntios ele escreveu: "Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados"(1Co 1:26).

Como já tinha dito antes, não desprezo o estudo, ou o conhecimento de maneira geral. Compreendo que é importante conhecer o contexto histórico e geográfico da época bíblica, é importante saber em quais idiomas a Bíblia foi escrita, originalmente, conhecer a cultura dos povos daquela época, etc. Mas não coloco isso como imprescindível, como base. também não penso que os que possuam tais informações sejam melhores que os que não possuem. Até porque, é importante lembrar que ciências como a Filologia, a Arqueologia ou a História, não são ciências exatas, de modo que não se pode viver a vida cristã exclusivamente baseada nas informações que estas áreas do conhecimento nos dão.

Espero ter sido claro, que o texto não traga mal entendidos.

Que o Senhor Deus Todo Poderoso abençoe cada um de nós.

Graça e Paz!


Um comentário:

  1. Grande TJ!!!

    Cara, tava sentindo falta de seus posts! Que bom que você voltou a postar!

    Ótimo texto TJ! Gostei bastante. Uma reflexão necessária em nossos tempos. Por medo das más interpretações ou de heresias, esquecemos que é Deus, através de seu Espírito, que direciona e instrui sua Igreja. Esquecer isto é esquecer que, de fato, é o cabeça deste corpo plural e invisível.

    Como o Rev. Ricardo Gondim já deixou claro no livro "O caminho do coração", tanto o "conhecimento teológico" quanto a "experiência espiritual" não levam ninguém a desfrutar de um relacionamento com o Pai. O conhecimento e as experiências podem nos levar a ter um relacionamento mais próximo e íntimo com Deus, mas são apenas instrumentos, não fins em si mesmos.

    Que possamos nos preocupar mais em experimentar, conhecer e viver o Amor do Pai, que é o vínculo da perfeição e marca maior de todo cristão.

    Abração!

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