O pássaro e o gato

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Há um motivo para que os pássaros, de forma geral, sejam tomados como símbolos de liberdade e não os gatos, por exemplo. O voo é a representação máxima, na existência, do ser livre. Talvez, por isso, a invenção do avião tenha tido mais expressão do que a do motor a vapor (que os gatos também tem) mesmo considerando que foi a partir deste último que toda a revolução tecnológica tenha sido impulsionada com mais força.

Enfim, os pássaros representam a liberdade. Sempre me perguntei o que os pássaros fazem quando não estão voando (além, é claro, de comer, dormir e reproduzir-se). Se eu tivesse asas, não sei se ficaria muito tempo no solo não: esparramado em algum canto, como um gato. No céu não existem estradas. Nunca vi congestionamento no trânsito de pássaros. Mesmo quando existem muitos deles, normalmente, eles conseguem não colidir uns contra os outros e, por incrível que pareça, o voo coletivo se torna um espetáculo ainda mais bonito que o solitário. Os pássaros conseguem ser pássaros sozinhos e coletivamente. Os gatos só conseguem ser gatos sozinhos, pois os gatos sempre querem se mostrar mais gatos que os outros.

Os pássaros são realmente livres. Não que os outros animais não sejam, de forma alguma. Longe de mim pensar que um gato saltando entre telhados seja menos livre que um pássaro (acho até que o gato é um pássaro sem asas, será que é?). Enfim, mas é que os pássaros não parecem se preocupar com a liberdade, como os gatos. Eles também não precisam tomar trilhas, não precisam perceber com cuidado o terreno onde pisam, os pássaros não precisam se impulsionar para saltar ou tomar cuidado para não cair de ambientes altos. Os pássaros se sobrepõem ao espaço. No céu, não há solo. A liberdade não tem chão.

A liberdade dos pássaros é maior que eles mesmos. Do alto, é possível ver tudo o que está abaixo. Um pássaro pode voar no céu ou saltitar na grama (o gato sem asas, não pode voar no céu). Assim, os pássaros tem mais opções de escolha do quê os gatos e, com mais opções de que caminhos percorrer, eles podem decidir fazer ou não fazer mais coisas que os gatos. Além disso, os pássaros, por estarem no céu, expostos à luz direta, são vistos por todos que estão embaixo: podemos vê-los voando livremente pelo céu, traçando percursos distintos, diversos, impensados na imensidão azul. Quase sempre os gatos que vejo traçam o mesmo percurso por entre os telhados ou caminham no mesmo muro, pois não existe outra rota por onde passar. Os gatos são limitados porque não tem asas. Além disso, dificilmente vejo gatos durante o dia. Fazer gatinices à luz do sol não é próprio de gatos. Os gatos sem asas gostam da escuridão da noite e não querem ninguém olhando a vida de gato sem asas deles. Os pássaros não tem problemas em serem vistos, nem em serem pássaros.

Os pássaros não são escravos da liberdade. A liberdade dos pássaros os torna mais livres. Acho que, porque são símbolos de liberdade, os pássaros realmente se tornam livres até da liberdade. Ser livre não é a meta do pássaro livre. Os gatos, no entanto, parecem sempre querer reafirmar sua liberdade de gato sem asas. Os pássaros são livres por não pensarem na liberdade e por voarem abaixo do sol. Os gatos sem asas precisam reafirmar sua liberdade porque, à noite, ninguém consegue ver que eles são livres. Daí que os gatos precisem sempre fazer gatinices e fingir não se importar com o que os outros pensam deles, para se sentirem mais livres. Os pássaros fazem passarices e voam pelo céu sem pensar que pensam que ele é livre. Os pássaros ignoram a ideia de liberdade, porque eles foram criados com ela e sabem quem ela é.

Os pássaros são livres porque sabem que suas asas não são suas. Quando os pássaros voam eles tomam emprestadas algumas coisas: o vento, o céu e as asas. Quando os pássaros veem suas asas eles sabem que elas não são deles. Os pássaros são livres porque entendem que eles não são pássaros sozinhos: são pássaros por empréstimo do céu, do vento e das asas. Por isso, eles usam sempre e muito as asas, o vento e o céu; e são livres. Os gatos não entendem isso e acham que são gatos por eles mesmos. Quando o gato sem asas viu que estava sem asas ele percebeu que era um gato sem asas e passou a querer mostrar que era livre sem empréstimo algum. Se o gato sem asas aceitasse o empréstimo de asas, do vento e do céu; ele seria mais livre.

O gato sem asas em mim, vive querendo mostrar que é livre. Já o pássaro que está em mim não quer mostrar nada, toma emprestado tudo e vive pássaro, por isso, é livre. Por causa da liberdade que o pássaro pegou de empréstimo e esnoba, o gato sem asas vive querendo derrubá-lo do céu e devorá-lo. Os gatos querem comer os pássaros porque os pássaros são mais livres do quê os gatos sem asas, que querem se mostrar livres. O gato em mim vive querendo devorar o pássaro; mas o pássaro, que vive de empréstimos, voa, voa e voa... porque é livre.

(Acho que eu deveria ter escrito sobre o Natal... mas o pássaro estava voando no céu, com o gato a observá-lo cobiçoso).

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