(DES) angústia




O prefixo des- está em alta nesses tempos pós-modernos. E serve para ornamentar palavras e expressões difíceis como “desreferencialização do real” e “dessubstancialização do sujeito”. Palavrões, não? Vejamos, imagine que você precisa comprar um carro para uma mobilidade mais eficaz dentro da cidade, você vai a uma concessionária e em lugar de comprar um carro por suas qualidades técnicas, você compra um carro por causa do seu design, seu nome, ou seja, por fatores que aparecem na sua publicidade. De fato, você não está comprando um carro, mas o discurso criado sobre o carro. Assim, tanto a realidade (o carro, objeto) quanto você (o sujeito) estão vazios - são apenas alegorizações de discursos midiáticos sem substância e sem personalidade, porque ao buscar a diferença seguindo as modas e propagandas, todos acabam sendo iguais.
            Iguais! Todos deveríamos ser iguais, não é mesmo? Mas iguais segundo a ótica cristã e não segundo os (des)padrões deste mundo, dessa sociedade deturpadora e alienante. Paulo há muito nos avisa: “Não vos conformeis com este mundo.” (Romanos 12:1). No pós-modernismo, podemos dizer: Vos desconformeis deste mundo. Vão na direção contrária, oposta, neguem este mundo, separem-se dele. Esse mesmo prefixo des-, tanto pode representar um completo vazio, como pode por outro lado representar uma atitude de observância da palavra de Deus, pois Paulo continua: “mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. Transformai-vos, cristãos, seguindo na direção contrária, estando em descompasso com o mundo!
            É claro que andar na contramão não é fácil! Lembremos o caso de Luís da Silva e Marina, personagens do romance Angústia, do grande Graciliano Ramos. Ambos de condições pobres são vizinhos. Luís da Silva é funcionário público e vive assando e comendo como se diz. Marina é única filha de um casal que luta ainda mais que Luís para sobreviver. Luís se apaixona por Marina e deseja casar com ela, tudo como manda o figurino, quer dizer, nem tanto assim, porque lhe faltava dinheiro para comprar vestido de noiva, camisa de seda, véu, grinalda, sapatos novos, sem falar no enxoval e todo esse figurino que acaba por se tornar mais importante do que o próprio matrimônio. Foi o que aconteceu com Marina. Ela queria tudo isso, mesmo sendo pobre, era cheia de futilidades, por isso, ao ver seu noivado magro, decidiu enrabichar-se com Julião Tavares – rapaz rico, comerciante, cheio de lábia – que a engravidou e a abandonou para correr atrás de outras saias. Luís endoideceu com a atitude de Marina. Ele gostava da moça, queria casar, endividou-se, gastou todas as economias para enfim vê-la se entregar a outro homem por causa de dinheiro. Isto lhe causou uma angústia tão grande que o leitor compartilha vivamente a cada página como se não saísse do lugar, remoendo ali aquelas insanidades e desatinos. Marina tinha ganas de ser igual às mulheres da sociedade e acabou sendo mais uma mulher pobre, mãe solteira, analfabeta, reproduzindo essa vida angustiante. Luís da Silva enlouqueceu e acabou sendo mais um homem pobre que se esforçou para ter uma vida comum, mulher, filhos, trabalho digno, mas que ficou apenas à margem.
Nesse caso, as personagens andam na contramão da vida plena e feliz em Jesus Cristo, porque excluídas e marginalizadas por elas mesmas, consideradas frutos do meio preferiram seguir conformadas ao sistema ao criar uma reviravolta, uma desangústia! Não podemos ficar como Marina e Luís da Silva, encurralados. Marina poderia ter escolhido outras formas de crescer economicamente, como Luís da Silva poderia ter encontrado outra mulher que lhe correspondesse emocionalmente. Assim como nós podemos também andar na contramão do conformismo e da angústia provocada por anseios e ambições deste mundo, transformando nossa mente e dizendo um grande e enorme prefixo DES- para essas coisas. Fazendo o trocadilho “acontece na vida, acontece na literatura”. Vamos escrever uma vida de desangústia, de não para tudo que seja contrário a Cristo e a vida repleta de gozo e satisfação que Ele deliberadamente nos dá!

2 comentários:

  1. Pri,

    Texto inspirador para nos incentivar a uma mudança de práticas. Acho que o caminho é esse mesmo: o de desangustiar-se. Desconstruir-se, desmecanizar-se, desautomatizar-se, desmascarar-se e descobrir-se através de Cristo e de seu modo de viver, da lógica de seu caminhar que é um descompasso em relação ao modo de caminhar deste mundo (em todos os tempos) e um compasso em relação ao modo de ver de Deus.

    Desangustiar-se é fundamental. Isso, no entanto, só vem através do descompromisso de viver sua vida da forma que você quer. É preciso desvencilhar-se do controle e passar a deixar que o Espírito guie cada passo, cada ação.

    Obrigado por mais uma ótima reflexão!

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  2. Não poderia ter dito melhor! Você usou muito bem o des-! Obrigada pela leitura e por compartilhar dessa reflexão tão importante para nós, principalmente, nos dias de hoje! Que possamos cada vez mais nos achegar a Deus e nos desapegar das coisas deste mundo! Amém!

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