Fraternidade, o último degrau para o amor.

Enquanto me divertia lembrando a origem e a importância da nossa fraternidade para cada um de nós, refleti para além do óbvio, aquilo que imediatamente vem à mente quando usamos a palavra "fraternal". Procurei nos Escritos Sagrados meditações mais profundas para enriquecimento de minhas reflexões. Encontrei o texto abaixo em uma das cartas do apóstolo Simão Pedro:


(...)empenhem-se para acrescentar à sua fé a virtude; à virtude o conhecimento;ao conhecimento o domínio próprio; ao domínio próprio a perseverança; à perseverança a piedade;à piedade a fraternidade; e à fraternidade o amor(...) II Pedro 1:5-7

Em seguida o apóstolo conclui afirmando que devemos nos empenhar para que essas coisas cresçam em nós a fim de que não nos tornemos inoperantes e improdutivos apesar de conhecer plenamente ao Senhor.

Observando o texto percebe-se que há como uma escala de valores que devem ser buscados por nós. O penúltimo "degrau" trata-se justamente da fraternidade, seguindo-o o amor. Mas então veio a pergunta: Como acrescentar o valor da fraternidade sem já haver alcançado o amor?

Pois bem, lembrei-me de Wesslen Nicácio descrevendo os pensamentos de Lewis a respeito dos quatro amores, quatro expressões gregas genericamente traduzidas como amor. Tratam-se então de distintos amores.

Fraternidade vem da palavra grega philadelphía, que se relaciona com o desejo de ver o outro bem e uma preocupação com o conforto mútuo. O que é uma tarefa fácil pra quem está no degrau da piedade. Derramar sobre o próximo as benção advindas de um relacionamento piedoso com Deus será natural. No entanto a palavra amor tem sua origem em outra palavra grega: Ágape. A palavra ágape nos transmite uma idéia de dedicação sacrificial, incondicional.

Não sou profundo conhecedor do idioma grego, o que não é necessário para perceber que Pedro trata de um nível muito mais elevado. Ágape é usado para descrever o amor de Deus. Eu me arrepio em pensar nisso. É um nível muito elevado. É tão elevado que nenhum pensamento humano, por mais nobre que seja, pode alcançar.

Mas o texto bíblico nos revela que a fraternidade é o que antecede o amor ágape. Jesus nos apresentou inicialmente dois mandamentos antigos: Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Mas por fim Ele nos deu um novo mandamento: Amai uns aos outros como eu vos amei.

Quando Jesus revelou esse novo mandamento, o fez em um grupo fechado, no círculo íntimo dos discípulos. Os mesmos entre si deveriam manifestar o amor Ágape. Percebemos que aparentemente ele nos mandou realizar algo impossível, o que sabemos não ser, caso contrário não o teria mandado. A nova natureza manifesta em nós pela fé em Cristo Jesus nos permite, entre irmãos, chegar nesse nível supremo de amor. Mas não sem que conheçamos o verdadeiro sentido da fraternidade.

Já ouvi alguém dizer: os amigos são a família que nós podemos escolher. Salomão também nos revela em seus provérbios que: há amigo mais chegado que irmão. A fraternidade não está vinculada apenas aos laços naturais de irmandade mas também aos laços criados por escolha. E ela nos é apresentada como o último nível antes desse amor divino revelado por Jesus e por ele ordenado para que se fosse praticado entre os irmãos. Entendemos que a mesma é pré-requisito para que alcancemos o inatingível, o mesmo amor que Deus tem por nós.

C.S. Lewis certa vez disse: "A amizade nasce no momento em que uma pessoa diz para outra: O quê? Você também? Pensei que eu fosse o único!" Essa identidade superior, a da nova criação, da raça eleita, é o que nos torna inicialmente semelhantes, criando a amizade, que na perseverança cria a irmandade. Mas no nosso caso não se limita apenas a isso.


6 comentários:

  1. Perfeito, brother!

    E não se limita a isso porque o amor fraterno aqui não é o amor afeição (Sorge), comum no meio familiar, mas o amor amizade (philos), que remete a uma identificação e afinidades mais próximas que as de um irmão.

    Esse amor amizade, próprio de uma fraternidade (composta por irmãos que se fizeram irmãos), torna-se, assim, mais profundo que os laços naturais de sangue. É esse tipo de laço que Cristo Jesus espera que tenhamos e, como você falou, brother, com um "q" a mais: precisa ser o amor ágape.

    O amor caridade (ágape), o próprio amor com que Deus nos ama, precisa estar presente em nossa convivência fraterna de cristãos. Este tipo de amor, sacrificial, doativo, persistente, indiscriminado, etc., só pode ser alcançado pela presença de Deus em nós.

    Assim como Cristo Jesus, nosso irmão mais velho, que "tendo amado os seus amou-os até o fim" e chamou seus discípulos de amigos, somos desafiados a nutrir este amor uns pelos outros, mesmo que a princípio em grupos pequenos de 2 ou 3 pessoas, mas com toda profundidade de comprometimento que este amor caridade exige.

    Muitas vezes, isso implicará em amar quem nos decepcionou ou quem nos trai, ou também, em termos de dizer a nossos amigos irmãos que eles estão errados, do mesmo modo que poderemos ouvir isso deles. Mesmo assim, somos convidados a permanecer nesse amor e isto tem um motivo; aperfeiçoamento.

    O amor amizade permite, com muito mais facilidade (por causa da identificação e do sentimento de igualdade entre os amigos), nos aperfeiçoarmos, pois teremos a possibilidade de ver em nossos amigos irmãos facetas de nós mesmos (em termos de virtudes e vícios) que precisamos mudar ou melhorar. O outro será uma referência para atitudes que precisamos ter e será um meio de sermos modificados.

    Entre cristãos isso é ainda mais importante, porque estamos juntos seguindo a Cristo. Daí se justificar que o cristão conte mais com suas amizades cristãs do quê com as não-cristãs, pois o enriquecimento espiritual que ele terá será muito maior com seus amigos verdadeiramente cristãos.

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  2. Muito interessante o texto, pois eu não tinha pensado muito sobre fraternidade, mas o membro(que não se identifica)disse:

    "Pois bem, lembrei-me de Wesslen Nicácio descrevendo os pensamentos de Lewis a respeito dos quatro amores..."

    Eu gostaria de saber qual é o quarto amor, pois só conheço três: o ágape, o eros e o filia.

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  3. Olá Laise! Pois bem, a ideia de quatro tipos de amor (explorados aqui e em escritos mais antigos que os nossos, como os de C. S. Lewis, por exemplo) é baseado nas quatro palavras gregas para amor (que designam amores diferentes). Utilizamos aqui a perspectiva de significado que C. S. Lewis dá a elas.

    São elas: Storge (Afeição - amor entre pessoas que convivem, como familiares, colegas de trabalho, etc.), Filia (Amizade - amor entre amigos, pessoas que se identificam e se reconhecem iguais em vários aspectos da vida), Eros (Amor erótico - entre homem e mulher, o feminino e o masculino, amor que atravessa a sexualidade), e Agape (Caridade - Amor de origem divina, amor transcedente).

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  4. O membro não identificado se apresenta. rs

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  5. Muito bom meu velho!!! Recordo-me de uma parte deste livro, os quatro amores, que me foi muito marcante: Lewis explica que há laços entre amigos que são tão fortes que criam partes únicas em nosso ser. Deixe-me explicar melhor: com a convivência desenvolvemos comportamentos que só se manifestam na presença de tal ou qual amigo, isso porque esse comportamento só veio a existir devido à presença deste mesmo amigo.

    Como você disse: você também!!! Pensei que eu era o único!! E a partir disso o que era um mundo isolado, um comportamento reprimido, pode alcançar a nossa realidade e outras pessoas podem ser alcançadas por essa nova experiência compartilhada. Como alguém que desenvolve uma nova técnica que revolucionará o mundo, mas por ele próprio desconhecer o valor desta descoberta não tem força para externá-la. No entanto, ao conhecer alguém de pensamento similar, embora não tão profundo, encontra arrimo para expor o pensamento.

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  6. Perfeito comentário meu caro Melífluo.

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