A usurpação de ser


De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo [...] Filipenses 2. 5-7a (ARC)

É interessante notar como Cristo, nosso Grão-Mestre, mesmo sendo Deus não se deu o direito de ser Deus quando esteve entre nós. Não quis ser tratado como Deus, embora afirmasse sua natureza divina. Não reivindicou o que era seu: reinos, nações, potestades e principados, mas se fez servo de todos.

Por quê isso? Será que ele não tinha todo o direito de requerer estas coisas? Sem dúvida, tinha todo o direito. Então, por quê não reivindicou? Porque ele veio para nos ensinar que nem sempre, mesmo que tenhamos direitos, devemos reinvidicá-los.

Isso porque o Amor é o mais importante. No versículo anterior, Paulo diz: "Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros", ou seja, Jesus, quando se fez homem, nos ensinou isto: que Ele veio por nossa causa, para nos ensinar o que é o amor, e não para exigir seus direitos divinos.

Isso é demonstrado desde o início, no momento da tentação de Cristo, quando Ele se afirma filho de Deus por não fazer o que um filho de Deus teria o direito de fazer ou reivindicar (transformar pedras, pular de prédios, ou conquistar reinos). O Rev. Ricardo Barbosa, no seminário "A Oração que Deus sempre responde", afirmou que apenas filhos ilegítimos (bastardos) reivindicam direitos; os filhos legítimos não precisam reivindicar nada, eles usufruem de tudo, porque é deles. Assim, se Cristo reivindicasse algo, estaria apenas afirmando a ilegitimidade de sua filiação e natureza divina. Tanto que a tentação sempre inicia por um "Se és o filho de Deus..."

Mas o que isso tem a ver conosco? É simples: como filhos de Deus temos a mesma obrigação de Cristo. Devemos nos esvaziar de nós mesmos. Dos nossos pretensos direitos, nossas reivindicações ante Deus. Isso é extremamente difícil, pois todos somos incentivados a buscar o que julgamos ter direito.

Somos estimulados a exigir coisas de Deus, como se Ele nos servisse e não nós a Ele. Além disso, somos estimulados também a exigir dos outros o que nos é de "direito" (não no sentido legal). Como, por exemplo, exigir que o outro nos trate da forma como acreditamos que merecemos, ou até mesmo reivindicar que outros saciem nossas necessidades.

Também somos tentados a reivindicar nossas vidas como nossas e, assim, o direito de fazermos dela o que quisermos. Somos incentivados a tentar ser o que quisermos, como quisermos, porque queremos, sem prestar contas a ninguém. Esquecemos que não somos ninguém por nós mesmos. (Se até a psicologia e sociologia reconhecem que só existe um "eu" em relação a um "tu", como pensar que podemos "ser" independentemente de outros?).

[É claro que isso não significa deixar de ter vontades e desejos. De modo algum. O que Deus espera é que nossos desejos e nossas vontades não ocupem o centro da questão. Além disso, significa não acharmos que nossos desejos e vontades são direitos a ser atendidos por Deus. Cada coisa no seu devido lugar. Devemos, sim, fazer como Cristo no Getsêmani: expor nossa vontade a Deus, mas buscar que seja feita a vontade dEle.]*

Deus, o Criador de todas as coisas, nos fez por seu propósito e vontade. Nada mais justo e próprio que vivamos de acordo com seu propósito e vontade. Temos, no entanto, em nossa natureza caída, a vontade de usurparmos de Deus seu direito sobre nós, pois, muitas vezes, não acreditamos que sua vontade e querer sejam, de fato, bons, perfeitos e agradáveis.

Ora, o Senhor mesmo nos prometeu que nos acrescentaria as demais coisas, bastava apenas que priorizássemos seu reino. E priorizar o reino é imitar (mimetizar) Cristo, ou seja, nos esvaziarmos de nosso falso "eu" e nos enchermos de Cristo. Esvaziarmos nosso ser de reivindicações (pra mim, meu, etc.) e nos encher do ser de Jesus (pra Ti, Teu reino, etc.).

Tenho dificuldade com isso, principalmente, quando vejo pessoas que não demonstram possuir o temor de Deus "usufruindo" de tudo (como se fossem filhos legítimos) e eu, como alguns outros cristãos, não. Às vezes, tendo a cair nesta "tentação" de querer transformar pedras em pães, só porque estou com fome. Não é assim que deve ser e o Pai tem me fortalecido neste aspecto.

Basta que Ele nos lembre do pecado original: a tentação no Éden. Quando acreditamos que temos direitos que o Pai não nos deu (ou que, para nosso próprio bem e o do próximo, não nos permite usufruir) não estamos querendo ser iguais a Deus? Essa é a primeira e maior tentação.

*Post-scriptum

2 comentários:

  1. muito sábia sua colocação. Parabéns!

    obs: Que gracinha!

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  2. Fantástico Wesslen!!! Seu post representa uma das muitas batalhas diárias que o cristão tem que enfrentar, e que precisa estar sempre vigilante.

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