Azar ou sorte


Fala-se de um certo velho fazendeiro em uma época antiga e em um lugar comum. Ele era muito humilde e em sua propriedade possuía apenas um cavalo que utilizava para todas as suas atividades.

Eis então que, certo dia, seu cavalo foge de sua propriedade e seus vizinhos se apressam por comentar junto ao fazendeiro: "mas que azar, fazendeiro, teu único cavalo fugiu e agora terás muitas dificuldades para gerir tua fazenda e cuidar de teus afazeres". A resposta do fazendeiro não poderia ser mais intrigante: "é... não sei se azar... ou sorte".

Poucas semanas depois, o cavalo do velho fazendeiro ressurge... e não vem só. Trouxe consigo dezenas de cavalos selvagens que encontrou enquanto estava perdido. Mais uma vez, os vizinhos não tardaram em aparecer e comentar suas impressões com o fazendeiro: "mas que sorte, fazendeiro! Agora tens ainda mais cavalos!". Com ar calmo e sereno, o fazendeiro faz mais uma vez a constatação que deixa todos perplexos: "é... não sei se sorte... ou azar".

Mais algumas semanas passam e um imprevisto ocorre: o jovem e único filho do fazendeiro cai de um dos cavalos selvagens enquanto realizava a doma e como resultado quebra uma de suas pernas e fica com leves escoriações pelo corpo. Os vizinhos, mais uma vez, chegam junto ao fazendeiro assim que tomam conhecimento da notícia e mais uma vez concluem: "mas que azar, fazendeiro, teu único filho agora está machucado e levará meses até que possa ajudá-lo na lida da fazenda". Os vizinhos já se encontravam incomodados com as respostas anteriores do fazendeiro e esperavam ansiosamente por saber o que ele falaria nesta nova situação. Com a mesma serenidade e economia de palavras que o caracterizava, o fazendeiro fala: "é... não sei se azar... ou sorte".

Agora a paciência dos vizinhos havia esgotado. Não se inibiam de chamar o velho fazendeiro de louco por falar uma asneira como aquela. Como poderia um filho com a perna quebrada e machucado ser sorte de alguma forma? Loucura!

Mais umas semanas passam. Eclode uma guerra civil na região. Todos os jovens são então convocados para participarem da guerra. As lágrimas e o choro tomam conta dos vizinhos do fazendeiro ao verem seus filhos partirem para um futuro incerto, mas o filho do velho fazendeiro é então dispensado da guerra por estar com sua perna quebrada...

2 comentários:

  1. huahauhauhauhau!

    Essa é realmente muito boa, Master! Não devemos ser precipitados, ainda mais, para nós cristãos, que vivemos sob a égide dO Soberano!

    Espero, algum dia, escrever um post aqui com uma temática semelhante. Acho que a gente tem o mau costume de avaliar o que nos acontece como "bom" ou "ruim" através da sensação que temos das coisas. Ora, há remédios amargos que fazem bem e venenos adocicados que nos fazem mal.

    O Grão-Mestre de nossa fraternidade nos ensinou: "pelos frutos conhecereis a árvore". Apenas pelo que será produzido das situações e acontecimentos revelará se foi bom ou ruim.

    Mas essa avaliação não deve ser nossa preocupação; temos apenas de viver o melhor que pudermos ante as situações que encontrarmos. "No mundo tereis aflições", disse o Mestre, e isso implica que teremos dificuldades e problemas, mas não devemos nos preocupar com o que nos acontece aqui, pois "temos morada" e "não somos desse mundo". O bom, belo, prazeroso e transcedente daqui jamais se comparará "com a glória que nos aguarda".

    Esse "peso de glória" (para citar C. S. Lewis) é nossa esperança do que de fato é bom, belo e prazeroso. Neste mundo, em que estamos inseridos e fazemos parte, não temos como alcançar o perfeito, o belo, o completo ou o bom (acho que Platão falou algo assim, não é?).

    No máximo, sabemos que o bom existe, mas, por nossa limitação (somos apenas uma parte neste universo) não podemos alcançá-lo. O mais próximo que podemos chegar é através da mimese (representação/imitação) de Cristo. Que nos eleva a um nível mais próximo do bom, mas que ainda não É o bom, pois, nossa limitação (fruto da existência) nos impede de alcançar.

    Então, sejamos prudentes, e independentemente de carros e cavalos, confiemos no Senhor, que nos sustenta e governa.

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