Justiça, Misericórdia ou Graça?



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         "— Mas isso é terrível — gritou Frodo. — Muito pior do que o pior que eu havia imaginado a partir de suas insinuações e advertências. Ó Gandalf, meu melhor amigo, que devo fazer? Pois agora estou realmente com medo. Que devo fazer? É uma pena que Bilbo não tenha apunhalado aquela criatura vil, quando teve a chance!
        — Pena? Foi justamente pena que ele teve. Pena e Misericórdia: não atacar sem necessidade. E foi bem recompensado, Frodo. Tenha certeza de que ele foi tão pouco molestado pelo mal, e no final escapou, porque começou a possuir o Anel desse modo. Com pena.
          — Sinto muito — disse Frodo. — Mas estou com medo; e não sinto nenhuma pena de Gollum.
          — Você não o viu — Gandalf interrompeu.
         — Não vi e não quero ver — disse Frodo. Não consigo entender você. Quer dizer que você e os elfos deixaram-no viver depois de todas as coisas horríveis que fez? Agora, de qualquer modo, ele é tão mau quanto um orc, e um inimigo. Merece a morte.
        — Merece! Ouso dizer que sim. Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém à morte. Pois mesmo os muito sábios não conseguem ver os dois lados. Não tenho muita esperança de que Gollum possa se curar antes de morrer, mas existe uma chance. E ele está ligado ao destino do Anel. Meu coração me diz que ele tem ainda algum tipo de função a desempenhar, para o bem ou para o mal, antes do fim; e quando a hora chegar, a pena de Bilbo pode governar o destino de muitos — e o seu também." ("A sombra do passado", O Senhor dos Anéis: A sociedade do anel, J. R. R. Tolkien).

Este trecho de O Senhor dos Anéis é maravilhoso! E serve de inspiração, ou epílogo, para a reflexão abaixo.

Este ano (infelizmente esqueci-me os dias exatos, mas, se não me engano foi no mês de abril) participei do Seminário "A oração que Deus sempre responde" com o Rev. Ricardo Barbosa, da Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília (já citado em outro post). Um dos momentos mais interessantes para mim foi a distinção entre Justiça, Misericórdia e Graça de que ele se utilizou. O exemplo dado foi da parábola do filho pródigo, de que me utilizarei também para ilustrar as diferenças.

Imaginemos que, ao decidir retornar para casa, o filho mais novo ouvisse a seguinte resposta do pai (talvez até da janela de casa): "Você me pediu a herança antecipada, eu te dei. Agora, siga a sua vida como você quis. Não farei mais nada por você". Esta resposta seria um exemplo claro de justiça: você recebe o que você merece. O filho pediu a herança antecipada o que significava o corte de relações com o pai e a família, nada mais justo que o pai não o recebesse de volta.

Agora, visualizemos outra resposta (desta vez o pai vem receber o filho na porta de casa): "Bem, você me pediu sua herança antecipada, e eu te dei. Mas agora, posso perceber que você está mal das pernas... vou fazer o seguinte: vou aceitar seu pedido para contratá-lo como meu empregado". Esta outra resposta seria um exemplo claro de misericórdia: você não recebe o que você merece como punição. O filho pediu a herança antecipada e gastou tudo, o pai poderia negar qualquer auxílio ao filho (que merecia o desprezo do pai), mas, ao invés disso, o pai decide agir com misericórdia e não retribui com justiça, mas com misericórida.

Por fim, vejamos mais uma vez a resposta dada (com o pai saíndo correndo ao encontro do filho perdido): "Mesmo tendo pedido sua herança antecipada, o que eu te dei, e a tendo gastado e chegado à miséria, darei a você todos os privilégios de filho de volta, até mesmo uma nova parte na herança que te deixarei". Esta resposta é o exemplo claro de graça: você recebe o que não merece como dádiva. O filho pediu a herança, a esbanjou e voltou sem nada, o pai o recebe de volta e restitui todos os direitos de filho.

Além de maravilhoso, o exemplo é muito claro sobre as diferenças. Mas algo que Ricardo Barbosa nos chamou atenção (aos que estavam no seminário) é que normalmente pedimos que o senhor seja gracioso conosco e justo com o nosso próximo. Gostamos quando Deus age com Graça em nossas vidas, mas esperamos que Ele seja bem justo com "aquela pessoa que não deve ser nomeada" (não é uma menção à Voldemort! LOL). Aqueles que nos irritaram, decepcionaram ou feriram, merecem, aos nossos olhos, a justiça de Deus, mas nós, sempre coitadinhos, devemos receber da Sua Graça.

Paremos um pouco e vamos refletir sobre nossas ações, como Gandalf, o cinzento, reflete em relação à Gollum. Será que nossa ação de Graça, com os outros, não poderá refletir (mesmo que egoisticamente) em Graça para nós? Será que, como representantes do Rei da Graça neste mundo, temos agido com Graça em relação às pessoas próximas de nós? Será que "aquela pessoa" (sim, esta que você sequer consegue pensar nela!) não deve também ser, através de nossas vidas, alvo da Graça de Deus? Não merecemos nada, da parte de Deus. Estamos sempre em falta, em débito, no pendura e no SPC celestial. Por quê, então, não contribuir para diminuir o débito alheio? Caso não possa agir com Graça, ao menos, aja com misericórdia, mas não ouse agir com justiça... pois "a medida que usarmos, será usada para nos medir" e, por isso, é bom deixar a medida bem generosa em dádiva, para que não sejamos encontrados em falta.

2 comentários:

  1. Meeeeeeeeeeeeu irmão!!! Felizardo foi você por ouvir isso antes de mim do próprio Rev. Ricardo Barbosa, e DUAS vezes felizardo fui eu por ler sobre isso após sua apreensão e ruminação, que pôde mostrar para mim, e aos demais leitores, que Gandalf, o cinzento, tem um conhecimento que transcende o universo da terra média.

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  2. Wesslen, adorei a reflexão do Rev. Barbosa porque eu nunca tinha pensado dessa maneira, pois, sempre quero receber graça de Deus e quero que o próximo seja punido pelos erros que cometeu e o mais incrível é que dessa maneira eu sentia que a justiça estava sendo feita. Agora sei que não, mas eu já tinha lido algo parecido no livro A cabana. Parecido no sentido de que Todos somos filhos de Deus e Deus não pode condenar nosso irmão só porque estamos pedindo porque o nosso irmão também é filho dele. Já o filme "O senhor dos anéis", que muitos julgam como demoníaco, além de perfeito, para mim, traz muitas mensagens e atitudes sábias...

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