Por que os heróis passam por tantos problemas?



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O título também poderia ser "Por que coisas ruins acontecem a pessoas que buscam ser boas?" Esta é uma dúvida muito velha e desgastada, porém sempre retomada quando em momentos de crise. Logo de início, quero deixar claro que este post não vai atender à amplitude que a pergunta demanda. Vou tentar ser conciso e objetivo. Também, como bom nerd, vou tentar dar exemplos com personagens e situações da cultura nerd (senão, deixa de ser uma Fraternidade de Cristãos-Nerd!).

Os grandes heróis sempre passam por diversas situações difíceis, tristes e ruins: Luke Skywalker perdeu os tios assassinados pelo Império Galático e descobriu que seu maior inimigo era seu pai; Neo sofreu com a própria cegueira e com a morte de Trinity durante a guerra contra as máquinas; Frodo perdeu um dedo, ganhou um ferimento que doía constantemente, além do trauma que o contato com o Um Anel lhe deixou; Naruto perdeu os pais, perdeu o amigo e nunca conseguiu conquistar seu grande amor... Se pesquisarmos nas mitologias, todo herói que se preze teve algum grande sofrimento ou perda. Mas, por quê isso?

Não há, de fato, uma resposta simples; a verdade é que coisas ruins acontecem a pessoas boas e a pessoas ruins igualmente. Não, não existe esta correlação causa-efeito que afirma: "coisas boas acontecem a pessoas boas" e "coisas ruins acontecem a pessoas ruins". Qualquer pessoa séria que parar para refletir e analisar o mundo a sua volta verá claramente que esta lógica não existe. Conheço pessoas boas que passaram por momentos de terrível dor. Também conheço pessoas ruins que parecem simplesmente não ter problema algum. Isso faz parte do mundo em que vivemos e temos de aceitá-lo (não nos cabe, nesse sentido, "fazer justiça". "Eu retribuirei", diz o Senhor).

O problema é o sistema (sim, a velha sentença!). Vivemos em um mundo corrompido com pessoas corrompidas (quem tem lido a série "Singularidade" aqui no blog compreende bem o que isso quer dizer). É lógico que a lógica será afetada (Dah!). Quando os elementos do sistema estão corrompidos, ou seja, não respondem como deveriam, todo encadeamento fica comprometido. Daí que até "a natureza geme pela manifestação dos Filhos de Deus", como diz Paulo na carta aos romanos, pois até a natureza foi submetida à corrupção e deseja seu restabelecimento, sua reordenação, sua lógica retomada.

O interessante é que os grandes heróis não são os que buscam vingança ou os que fazem justiça para si. Não, os grandes heróis sempre estão envolvidos em causas maiores que eles e estão dispostos a lutar não pela causa deles mas por "justiça" de uma forma mais ampla e geral: o Império Galático ameaçava toda a galáxia; as máquinas maltratavam todos os seres humanos; o Um Anel era um perigo para toda a Terra Média; Orochimaru e a Akatsuki eram uma ameaça a todo o mundo ninja...

Ué, mas eu não sou nenhum desses heróis (sequer tenho super-poderes ou habilidades especiais!). E aí? Como eu fico com os meus problemas? Bem, independente dos atributos diferenciais dos heróis, eles são arquétipos de nós mesmos, de nossas lutas diárias e problemas. Eles representam nossa luta contra um sistema opressor, contra nossa escravidão (mesmo sem correntes), contra o mal que quer dominar nossas mentes, ou contra princípios e ideologias perversos. Tudo isso só colabora com a corrupção ainda maior do sistema. Estas coisas só contribuem para tornar o sistema ainda mais perverso e fora da lógica, do Logos.

Coisas ruins acontecem a pessoas boas porque acontecem com qualquer um que está dentro deste sistema corrompido. Talvez, para os que veem muita lógica e ordem no sistema atual, as coisas ruins sequer sejam vistas como ruins, pois eles concordam com a atual desordem do mundo. Talvez, para os que percebem a desestruturação e corrupção, tudo pareça sempre pior e que nada de bom ocorra, por tudo caminhar ininterruptamente para a fragmentação.

Como os grandes heróis da cultura nerd, o que podemos fazer é lutar, mesmo que no universo de nossa própria vida, em agir de forma diferente. Compreender que coisas ruins irão acontecer e lidar com elas de forma que elas sejam transformadas em algo de bom, se não para nós, mas para os outros. Pode parecer utópico e surreal, mas é completamente possível, principalmente, para aqueles que já não tem "sua vida por preciosa", para aqueles que sabem que existe uma "Causa Maior" pela qual, se for necessário, devamos morrer. O sofrimento pode gerar duas coisas (pelo menos): a resignação e a desesperança ou o aperfeiçoamento e transformação.

Enquanto estivermos em um mundo corrompido e caótico será comum termos sofrimentos e problemas, enfrentarmos "vilões" e "esquemas do mal". Cabe a nós lidar com as coisas ruins transformando-as: o sofrimento em esperança, a maldade recebida em bondade compartilhada, a dor sofrida em consolo à dor do outro, a injustiça em justiça (ou Graça) ao próximo, a afronta com sujeição e humildade para com todos. Só assim podemos reverter a desordem natural, derrotar o sistema malígno e salvar o dia chamado "Hoje".

[Quer aprofundar? Leia o livro O problema do sofrimento, de C. S. Lewis; e as "Bem-aventuranças" no livro de Mateus capítulo 5]

Um comentário:

  1. Caro frater, vendo seu post lembro da memorável frase do tio Ben: “Grandes poderes trazem grandes responsabilidades”.

    Num certo episódio do homem aranha, Peter estava queixando-se das suas dificuldades: “Tenho que trabalhar, cuidar da tia May, dar atenção a Mary Jane e ainda salvar a cidade enquanto luto contra os vilões e impeço que a polícia me prenda. Pra piorar o imbecil do J.J. torna tudo o que faço num ato com segundas intenções visando no fim cometer um crime. Não dá mais, Não dá mais...” por uma razão que não me lembro, algum evento paralelo no episódio, o tio Bem aparece e lhe diz:

    “Peter, Grandes poderes trazem grandes responsabilidades” e depois vai embora.

    Com isso o tio Bem queria dizer que as grandes responsabilidades só existem porque existem grandes poderes sobre a pessoa que recebe essas responsabilidades, Peter só estava focando nas grandes responsabilidades e esquecendo dos seus grandes poderes.
    Acredito que o cristão pode responder de duas formas erradas a essa mesma situação: a primeira é agir como o Peter, olhar as responsabilidades e esquecer os poderes; outra é lançar sobre si mais responsabilidades do que são exigidas de uma pessoa com tal ou qual poderes.

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