A Família de nossa escolha


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"Família não se escolhe", diz o ditado popular. No entanto, conheço ao menos duas formas de escolher a família que podemos ter, três enlaces de amor verdadeiramente familiar.

A primeira forma, e mais óbvia de se escolher uma família, é decidindo seu cônjuge. É engraçado (ou esquisito) como, devivo à nossa forma descartável de nos relacionarmos hoje em dia, essa ideia se perdeu. Parece que o/a companheiro/a não se constitui mais em família; está mais como um acessório, que pode ser substituído a qualquer momento. A Bíblia nos diz que "deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão uma só carne" (Gn 2.24 ARA). Deixar pai e mãe, implica em uma "ruptura" com o sistema familiar antecedente, mas isso não significa em destruição, mas em aperfeiçoamento. Necessário é que meninos e meninas se tornem homens e mulheres e deixem a família dos pais para constituir suas próprias famílias. Seu pai e sua mãe não deixarão de ser seus pais, mas você terá uma nova família, sua com sua mulher ou seu marido. Isso é maravilhoso porque outro tipo de relacionamento entre pais e filhos pode ser gerado: o de amizade. Antes, devido à submissão da hierarquia familiar (indispensável para uma boa formação de qualquer sujeito), não era possível desenvolver completamente a amizade íntima com os pais. Mas, com a equidade de posições (Pai e Mãe reconhecem nos filhos suas posições de Pai e Mãe em outra família) a amizade e a intimidade pode ser aprofundada em um nível que a sujeição e a inexperiência da posição familiar não permitia. Tornar-se um com seu cônjuge é fazer-se família de alguém com quem você não tinha laços sanguíneos. Daí que serão "uma só carne" (que não se limita ao símbolo de união carnal pelo coito). Ser uma só carne é estabelecer um vínculo profundo, em que o outro é parte integrante de mim e eu dele.

A segunda forma, mais conhecida, porém pouco usada, é através de amizades íntimas. Hoje, embora as pessoas se afirmem amigas umas das outras, a palavra "amigo" não condiz com a relação que se estabelece: afeição. As pessoas gostam umas das outras e, a partir desta sensação, dizem que são amigas umas das outras. A amizade nada tem a ver com boas sensações, risadas ou "resenhas". C. S. Lewis já especificou muito bem a diferença em seu livro "Os quatro amores" (Meu Deus! Como as pessoas seriam mais inteligentes e espertas se lessem mais C. S. Lewis!!). A amizade tem mais a ver com afinidade de princípios, valores e objetivos do quê com companhias "animadas" para festas. A amizade é mais racional que emotiva: nela você será capaz de conhecer mais a si mesmo pelo outro, do quê sentir-se de "bem com a vida". Um bom amigo é aquele capaz de fazer você se sentir profundamente triste por reconhecer em você mesmo aquilo que não queria ver. E nesse momento ele se tornará ainda mais seu amigo. A bíblia nos aconselha: "O amigo ama em todo o tempo; e para a angústia nasce o irmão" (Pv 17.17 ARA). Este princípio nos mostra que amigos, verdadeiros e amados, podem se tornar verdadeiros irmãos quando do tempo de angústia. Em nossos dias, os amigos são os da balada (do pistoleiro??) ou da "resenha", aqueles que nos fazem nos sentir bem, nos colocam "pra cima". Quem tem irmãos de sangue sabe como, muitas vezes, eles jogam verdades (as vezes, exageradas) na nossa cara, que nos fazem nos sentir pior do que estávamos. Mesmo assim, a Bíblia usa essa imagem de amigos se tornando irmãos (tendo narrado no início a história de Jacó e Esaú!!). Irmãos nos conhecem profundamente, conhecem quando estamos mentindo, fazendo manha, ou sabotando a nós mesmos. Não há fingimentos na intimidade do lar. Quando nossos "amigos" não frequentam nossa casa é fácil enganá-los ou usá-los apenas para nos distrair de nossas angústias e problemas. O chamado cristão para a amizade é o da intimidade de irmãos: sem máscaras.

O terceiro laço familiar é o de nossas famílias de sangue. Sim, parece idiota dizer isso, mas a verdade é que as "famílias" deixaram de ser família. Os laços de sangue não unem mais, apenas em uma ou outra família vemos esta preocupação de estar juntos, de estarem unidos, principalmente ante as dificuldades da existência. Pais e filhos são estranhos. Irmãos e irmãs são inimigos. O que poderia e deveria ser o modo mais simples de união, pela convivência, torna-se um verdadeiro pesadelo de existência conjunta forçada. Isto é uma desgraça e Deus não quer isso. A Bíblia nos mostra um ótimo exemplo de como famílias podem se constituir (independentemente até de laços sanguíneos): "Ora, Jesus, vendo ali sua mãe, e ao lado dela o discípulo a quem ele amava, disse a sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Então disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa" (Jo 19.26 e 27 ARA). Se pessoas de ascendências diferentes, laços sanguíneos distintos, sem convivência íntima e histórias de vida distantes podem se tornar mãe e filho uns dos outros, o que dizer daqueles que convivem juntos desde o nascimento? Como Jesus demonstra, não é uma questão de obrigação, mas de escolha.

Seu marido ou sua mulher podem ser sua família, ou não. Seus amigos ou irmãos, podem ser sua família, ou não. Sua família de sangue ou pessoas próximas a você podem ser sua família, ou não. O conceito é amplo, mas depende unicamente de sua escolha. Você irá tratá-los como seus pais, mães, irmãos, irmãs, marido ou mulher? Só depende de você deixar ser trabalhado pelo amor de Deus para construir esses laços. Seu companheiro ou companheira nunca será sua família (mesmo vivendo debaixo do mesmo teto) se você não desenvolver intimidade, confiança e laço com ele/ela. Seus amigos ou amigas nunca serão seus irmãos ou irmãs (mesmo saindo juntos quase todos os dias) se você não desenvolver afeto e compromisso fraternal com eles/elas. Sua família não será sua família se você não agir de acordo com isso. Nomear as pessoas de "pai", "mãe", "irmão", "irmã", "marido" ou "mulher" não os transformará nestas categorias. Relacionamentos são fruto de ações, não apenas de palavras. Como você age com as pessoas vai definir o que elas serão pra você. Isso não é algo que surge de fora, mas de dentro. Que laços familiares você irá decidir formar em seu interior?

5 comentários:

  1. Muito bom. Lembrei-me de "leais são as feridas do que ama" de Salomão...

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  2. Aproveite para comentar que este post se utiliza de um ponto positivo do relativismo.

    Levando em consideração o post de TJ (O século XXI e o pensamento cristão), podemos perceber que embora o relativismo, como utilizado e pensado hoje, é maléfico, já estava presente na fala de Cristo, na cruz.

    Ao unir João e Maria como filho e mãe, Jesus desfaz a lógica sanguínea das famílias e as transforma em relações de escolha.

    A diferença está que o "relativismo" de Cristo é o que produz vida, que leva à ação, à mudanças, leva à busca de respostas, leva ao aprimoramento.

    Por isso que o evangelho pode transformar o mundo, porque é o poder de Deus, não de uma ideologia, mas de diretrizes que, se seguidas, tornarão o homem/mulher mais humano.

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  3. "Relativismo".

    Penso que o termo Relatividade, apesar de idêntico, é mais apropriado para essa fala. Wes, você é o homem das letras, penso que você deve entender o que se passa na minha mente.Traduza-me.

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  4. Translating...

    Please wait...

    Translation complete!

    (hauhauhauhauhauhua)

    Sim, Master Mazkir, penso que o mestre está correto: relatividade é melhor que relativismo (neste post). Pois relatividade é a qualidade do que é relativo e relativismo, além de expressar essa qualidade, também representa um conjunto sistemático de ideias a respeito disso (que foi merecidamente criticado no post "O século XXI e o pensamento cristão").

    Ótimo adendo!

    Mestre, ensine-me!

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  5. essa imagem do post. agradou muita gente hein?

    abraços!

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