"Nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia..." Será?

http://www.gracecompasschurch.org/blog/?p=91


"Não tenho arrependimentos", diz a mocinha do reality show, recém formada em estrela, após um mês de (con)finamento. "Tudo que fiz e vivi, foi o que me trouxe até aqui", sai outra pérola da conchinha oca. "Só sou o que sou por causa de tudo o que passei", fecha com chave de ouro seu velho baú de asneiras, a aprendiz de Emília.

Ora, essas sentenças não são privilégio de personalidades importantes, como nossa mocinha do exemplo. De fato, muita gente recebe, mastiga e engole ideias como essas sem qualquer reflexão ou crítica. Será que não ter arrependimentos é bom? Tudo o que fizemos e nos trouxe até aqui é bom? (Onde estamos é bom?) Ser o que somos, por causa do que fizemos, é bom?

A jornada desse texto vai tentar refletir um pouco sobre essa ideia de que não devemos nos arrepender de nada (seja acerto, seja erro) o que importa é que chegamos onde chegamos e somos o que somos por causa de tudo isso que nos ocorreu.

Para os cristãos (sim, este texto é direcionado a cristãos comprometidos com Cristo e com o evangelho, assim...), o arrependimento é uma ideia central para a transformação. No entanto, parece lógico que tudo o que fizemos (seja bom, seja ruim), nos ajudou a chegar onde estamos e ser quem somos. Além disso, é fácil para o cristão acreditar que se Cristo é nosso Senhor, Ele não dirigiu nossos passos até onde estamos? Se Deus está no controle de nossas vidas, como acreditamos, tanto as coisas boas como as ruins não "contribuem juntamente para nosso bem"?

Aí é que, a meu ver, reside todo o perigo dessa "sabedoria de feira livre" (que me perdoem os verdadeiros sábios de feira!). Até mesmo um cristão pode se deixar levar por essa ideia (exceto pela primeira sentença, "Não tenho arrependimentos!", que claramente, por conter a palavra adequada, não será usada por um cristão). Ora, devemos verificar atentamente o que essas ideias nos passam sobre arrependimento, transformação e caminhada cristã.

Primeiro, arrependimento. Esse é aparentemente o mais simples de se resolver. É claro que, para todo bom cristão, arrepender-se é essencial. Mas o que de fato significa arrepender-se? A palavra arrependimento, no novo testamento, corresponde, nos originais, à palavra grega "metanoia", normalmente traduzida por "mudança de mente". O sentido de metanoia é que a mente atravessa, passa além de algo e muda, dando a entender um aperfeiçoamento, ou crescimento, ou transformação no modo de pensar. Assim, arrepender-se pode ser visto como passar além de uma situação, superá-la gerando uma mudança de pensamento. Em Mateus 3.8, João já anunciava: "Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento". Esse trecho é fundamental para o que se segue: transformação, pois o arrependimento é visto como algo que, além da nova forma de pensar, gera uma nova atitude.

Falar em transformação não é o mesmo que falar em "passar por várias situações"; esse seria um erro Crasso. Existem pessoas que passaram por muitos momentos e não tem, de fato, nenhuma experiência para compartilhar. É como se fossem meros espectadores ante o "circo da vida"; veem em tudo uma encenação, que serve apenas para o entretenimento delas. A metanoia não nos deixa sentados vendo a banda passar. Ela nos faz mudar nosso modo de pensar e ver a vida de um novo patamar. Acreditar que a soma de tudo que vivemos nos transformou de algum modo é como acreditar que para caminhar basta ter duas pernas. Ora, se você, estando de pé, não lançar alternadamente os pés a frente do corpo, não sairá do lugar, mesmo tendo pernas. Por isso, do mesmo modo que é necessário um trabalho mental para fazer com quê o corpo se desloque, mesmo tendo membros, é necessário refletir sobre o vivido, através da metanoia, para transformar o modo de andar na vida.

Isso nos leva direto à caminhada cristã. É incrível a quantidade de versículos em que a vida cristã é comparada a um caminho. Desde os salmos até as cartas do novo testamento a ideia de percurso é presente. E toda jornada se dá pela passagem de um lugar para outro, pelo caminhar, pelo deslocar-se, pela mudança, pelo processo. Sem caminhada não há deslocamento e assim, não adianta ter pernas. Da mesma forma, não adianta passar por vários momentos e situações e não realizar uma crítica sobre eles. Nada mudará. É o reconhecimento daquilo pelo que passamos que nos fará ver para onde nossos pés estão indo (na verdade, podemos até perceber as situações como passos). Se, ao observarmos as situações por que passamos, conseguimos distinguir onde nossos passos vacilaram, estaremos em transformação, vivenciaremos metanoia.

Arrepender-se é reconhecer o descompasso: seja para um lado da trilha, seja para o outro. Para o cristão, "ser" é, primeiramente, imitar (mimetizar) Cristo. Não no sentindo ruim de imitar (como atuação artística, por exemplo), mas no sentido de deixar Cristo se realizar em nós (mimese como execução). E isso se dá no Caminho; Ele disse: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim." (Jo. 14.6). A trilha do cristão é em direção ao Pai e pra chegar no Pai precisamos andar pelo Filho.

Deste modo, o cristão olha para trás e vê seus acertos e erros. Reconhece, com tristeza, os passos que saíram da trilha; vê, com alegria, as pegadas no Caminho. Admite que poderia estar muito mais adiante na jornada, mas não desiste dela, antes pede ao Pai novas forças para caminhar com mais segurança. O cristão vê em suas experiências a mão de Deus, não para aplaudí-lo em qualquer ação, mas ora incentivando, levantando do chão ou puxando a orelha. O discípulo de Cristo só "é" por estar no Caminho e saber de onde veio e para onde está indo.

Quem caminha no mato sem direção, não sabe por onde passou ou para onde vai e, assim, não pode dizer a ninguém que jornada trilhou ou como chegou onde está. Está prestes a cair em um buraco ou atolar na lama. Está perdido e não sabe. Achar que somos o que somos, sem refletir o que isso de fato quer dizer, não nos ajuda a saber no que estamos nos transformando. Acreditar que tudo nos ajudou de alguma forma é achar normal, de alguém que sabe andar, levar tombos em terreno firme e plano. Deus nos dá uma certeza: estará conosco durante toda a jornada, seja debaixo de sol ou chuva, descida ou subida, terreno plano ou acidentado, mas Ele nunca vai sair da trilha porque desistimos dela ou vai nos seguir por dentro do mato, sem direção.

Com isso, a metanoia, o arrependimento, é o motor que nos permite avançar no caminho. Cada vez que nossa mente é "lançada à frente" pelo arrependimento do estado anterior, damos mais um passo em frente na direção de Cristo. Essa caminhada é transformação contínua: reconhece tanto os deslizes como os pés firmes, para que cada passo seja mais seguro que o anterior. Assim como os bebês precisam aperfeiçoar o controle dos músculos para melhor caminharem, os cristãos precisam se arrepender para firmar seus passos e, deste modo, chegarem-se ao Pai: cada passada mais segura e clara que a outra.

"Mas o caminho dos justos é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito". (Pv 4.18 ARC)

4 comentários:

  1. Lembrei-me ao ler essa postagem de um diálogo entre o Capitão Kirk e o irmão estranho do Spock, Sybok, que se dá no quinto filme da série Star Trek. Sybok quer libertar Kirk da sua dor. Ele responde: "Dor e remorsos não se eliminam com passes mágicos. São as coisas que fazem de nós o que somos. Se as perdermos, perdemo-nos. Não me levem as dores. Preciso delas!"
    Desde a primeira vez que vi o filme Star Trek: Final Frontier fiquei encucado com a fala de Kirk. Refleti bastante com relação a dor, remorso, aprendizado e finalmente arrependimento.
    Como a postagem de Mestre Nicos mostra por si só, a palavra arrependimento (metanoia) não deve ser confudida, como normalmente é, com remorso. O arrependimento nos permite aprender com o erro, retornar a caminhada, e por fim nos liberta do remorso e da dor, que em si mesma não nos faz quem somos, mas nos escravisa a uma postura antálgica.

    ResponderExcluir
  2. Muito legal brother! Citar contextos nerds sempre ajuda a compreender melhor.

    O post ficou curto pra tanta discussão que queria fazer. Espero que, do mesmo modo que Master Hugand fez, sejam suscitadas outras questões que não puderam ser levantadas no post. Já vi até que deixei de falar muita coisa importante sobre caminhada cristã.

    Bem, fica para os fraters comentarem!

    ResponderExcluir
  3. É meu caro frater! Estou tentando cumprir rigorosamente os Artigos 2 e 3 de "Dos Deveres dos Nerds":Tentar ser mais nerd do que qualquer um e se há uma discussão sobre um assunto nerd, deve dar sua opinião.
    Caso sinta a necessidade de expor mais coisas, "não se reprima". Crie um sgundo Post!!!!

    ResponderExcluir
  4. Fantástico Wesslen!! Recordei-me de certa vez em que andava com um conhecido, e ele disse: (ao passar em frente a um grupo de pessoas que estavam fazendo coisas que provavelmente lamentariam depois)todos vão para o inferno, não é? Então, com o meu interior em profunda contrição repliquei: Meu irmão não diga isso. Tenho plena convicção de que se não fosse o amor de Cristo que me levou, e me leva ao arrependimento, provavelmente estaria numa condição pior do que a deles, tomando decisões muito mais degradantes para o meu ser.

    Ao ler esse seu maravilhoso post percebi uma valiosa característica no arrependimento gerado por Cristo: ele não me deixa esquecer os desvios da trilha, os deslizes dos meu pés (como foi muito bem colocado), para que eu possa dar a outros esperança e um modo de mudança, já que eu vivi a minha mudança, e tenho vivido, de modo consciente e portanto posso compartilhar as constantes transformações que vivi.

    Também lembrei de Paulo quando diz que foi o pior dos pecadores e ainda assim foi perdoado, podendo, então, dar esperança a quem quer que seja.1Tm 1:15. Fantástico!!!

    ResponderExcluir